Álcool e câncer: um risco ainda subestimado pela sociedade
Todos os dias encontramos pacientes com histórias, sonhos e projetos de vida atravessados por uma doença que, em muitos casos, poderia ser prevenida
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Na rotina de quem trabalha com oncologia, é inevitável refletir sobre o que pode ser feito para evitar que tantas pessoas enfrentem um diagnóstico de câncer. Todos os dias encontramos pacientes com histórias, sonhos e projetos de vida atravessados por uma doença que, em muitos casos, poderia ser prevenida.
Por isso, quando novos estudos reforçam fatores de risco importantes, é fundamental que essa informação chegue à sociedade de forma clara e acessível. Pesquisa recente da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) aponta que o álcool está entre os principais fatores de risco evitáveis para a doença, estando relacionado a cerca de 4% de todos os casos no mundo, um número significativo, especialmente por se tratar de um fator sobre o qual podemos agir.
Um ponto que ainda surpreende é que essa relação não se restringe ao consumo excessivo. A ciência tem mostrado que não existe um nível seguro de ingestão de álcool quando falamos em risco de câncer. Mesmo quantidades moderadas podem aumentar a probabilidade de desenvolver determinados tipos de tumores.
Culturalmente, o álcool está associado a celebrações, encontros e momentos de lazer, o que dificulta sua percepção como um possível fator de risco para doenças graves. No entanto, a medicina tem avançado na compreensão de como ele atua no organismo. Ao ser metabolizado, o álcool gera acetaldeído, uma substância capaz de danificar o DNA das células e favorecer mutações. Além disso, pode provocar inflamações, alterar níveis hormonais e potencializar a ação de outras substâncias cancerígenas.
Entre os tipos de câncer associados ao consumo de álcool estão os de boca, garganta, laringe, esôfago, fígado, intestino e mama. No caso da neoplasia de mama, por exemplo, mesmo ingestões consideradas pequenas já podem aumentar o risco. Outro ponto importante é a associação com o tabagismo, que eleva significativamente as chances de tumores nas vias aéreas e digestivas superiores.
Isso não significa gerar culpa ou julgamento sobre escolhas individuais, mas a informação precisa ser transmitida com responsabilidade, equilíbrio e sensibilidade. O importante é que as pessoas tenham acesso ao conhecimento necessário para tomar decisões conscientes sobre sua própria saúde.
Hoje sabemos que uma parcela significativa dos casos de câncer poderia ser evitada com mudanças em fatores de risco modificáveis, como parar de fumar, manter alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente e reduzir o consumo de álcool.
Como oncologista, vejo de perto o impacto do câncer não só no paciente, mas em toda a família. Cada diagnóstico carrega medos, dúvidas e desafios que vão muito além do tratamento médico. Por isso, falar sobre prevenção também é uma forma de cuidado e de preservação da vida.
Quanto mais informação de qualidade chegar às pessoas, maiores serão as chances de reduzir diagnósticos evitáveis no futuro. Porque, quando o assunto é câncer, pequenas escolhas feitas ao longo da vida podem fazer uma grande diferença.
Virgínia Altoé Sessa é médica oncologista do Hospital Santa Rita
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