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Carteira assinada: o brasileiro sabe o que quer

Pesquisa mostra que maioria dos brasileiros ainda prefere carteira assinada e valoriza estabilidade e direitos trabalhistas

Dilson Carvalho Junior | 02/05/2026, 13:08 h | Atualizado em 02/05/2026, 13:08
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          Imagem ilustrativa da imagem Carteira assinada: o brasileiro sabe o que quer
Dilson Carvalho Junior |  Foto: Acervo Pessoal

Toda semana aparece alguém decretando o fim da carteira assinada. Seja pela “uberização”, trabalho por conta própria, a liberdade dos aplicativos. O futuro seria outro, dizem. Pois bem, a verdade é que os brasileiros não parecem ter recebido esse recado.

Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, feita com mais de 2 mil trabalhadores em todo o país, mostrou algo que qualquer advogado trabalhista já sentia na prática: a CLT ainda é o que a maioria quer. Mais de um terço dos que buscaram emprego recentemente escolheram o modelo formal como preferido. Entre jovens de 25 a 34 anos, esse índice passa de 40%, já o trabalho autônomo ficou em segundo lugar, com 18,7%. Aplicativos e plataformas digitais? Apenas 10,3%.

Por quê? Porque férias, 13º salário, FGTS e aposentadoria não são regalias. São direitos conquistados a duras penas — e que fazem diferença real na vida de quem adoece, de quem envelhece, de quem tem filho para criar. A carteira assinada não é apenas um documento. É a diferença entre ter para onde recorrer quando a vida complica e enfrentar tudo sozinho.

Chama atenção o fato de que são justamente os mais jovens os que mais valorizam a formalização. Não é nostalgia — é pragmatismo. Quem está começando a vida profissional entende, muitas vezes na pele, o que significa não ter proteção nenhuma quando algo dá errado. Um acidente, uma demissão repentina, uma gravidez. Sem carteira, o trabalhador fica sozinho. Quem atua no dia a dia das relações de trabalho sabe o que acontece do outro lado: o entregador de aplicativo que se machuca e não tem cobertura, o motorista que trabalha 12 horas por dia e não tem a quem recorrer. A pesquisa confirma esse cenário — 70% dos entrevistados enxergam essas plataformas apenas como renda extra, não como base de vida. O modelo pode até ser flexível, mas flexível para quem?

Os dados do próprio mercado reforçam essa leitura. O Brasil abriu mais de 255 mil vagas formais só em fevereiro deste ano, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. A geração de empregos com carteira segue aquecida — e a demanda por esses postos também. Não por acaso, a pesquisa aponta que 95% dos trabalhadores com emprego formal declararam estar satisfeitos com sua situação atual. Estabilidade, ao que tudo indica, ainda tem valor.

A narrativa de que a CLT é um entrave ao crescimento tem seus argumentos — e o debate sobre modernização das relações de trabalho é legítimo. Mas os dados mostram que, enquanto o tema é discutido em fóruns e projetos de lei, o trabalhador brasileiro já chegou à sua própria conclusão: quer direitos, quer proteção, quer previsibilidade. A pesquisa da CNI não encerra o debate. Mas coloca no centro dele uma voz que costuma ser esquecida — a de quem, de fato, trabalha. E essa voz, com toda a clareza, tem escolhido a carteira assinada.

DILSON CARVALHO JUNIOR é advogado especialista em Direito Civil e Digital

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