Substância encontrada em cobra pode reduzir o apetite
Molécula presente no sangue da píton pode se tornar, no futuro, uma nova esperança da Medicina no combate à obesidade
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Uma substância produzida na cobra píton pode ajudar a reduzir o apetite e se tornar, no futuro, uma nova esperança contra a obesidade.
Publicada na revista Nature Metabolism, a pesquisa descobriu que a molécula no sangue do réptil, chamada pTOS, aumenta mais de mil vezes após a alimentação. As pítons passam longos períodos em jejum e depois fazem uma única grande refeição.
Os pesquisadores analisaram que o composto, chamado para-tiramina-O-sulfato (pTOS), é produzido a partir de componentes da alimentação, com a ajuda das bactérias do intestino. Também foi observado que o pTOS atua no cérebro, ativando uma região ligada ao controle da fome. Em testes com camundongos — que não produzem naturalmente a substância —, o pTOS ajudou a reduzir o apetite e o peso corporal.
A professora do Núcleo de Genética Humana e Molecular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a pós-doutora Débora Dummer Meira, detalha que, em humanos, o pTOS circula no sangue e aumenta após as refeições, indicando que esse mecanismo de resposta alimentar é compartilhado entre diferentes espécies.
“Na maioria das pessoas, esse aumento é moderado, em torno de 2 a 5 vezes, mas alguns indivíduos apresentam elevações expressivas, chegando a níveis semelhantes aos observados em pítons”.
Queulla Garret, endocrinologista e pesquisadora clínica, destaca que o estudo é novo, mas sugere uma oportunidade de um novo medicamento anti-obesidade, sendo necessários ainda novos estudos.
A médica explica que o mecanismo do pTOS é hipotalâmico (cerebral), diferente dos análogos do GLP-1, como liraglutida e semaglutida. “Esses são remédios anti-obesidade com ação intestinal, cerebral e pancreática, trabalhando, por exemplo, o retardo do esvaziamento gástrico. A tirzepatida (GLP-1 e GIP) também tem ação multissistêmica”.
Segundo o endocrinologista Mario Sergio Zen, o estudo confirma o que já se sabe: há vários mecanismos regulatórios da fome, sejam os hormonais — como insulina, GLP-1, grelina e leptina —, os neuronais — que liberam ou inibem o apetite —, além de questões emocionais.
“E tudo isso tem de ser estudado. Foi assim que surgiu o primeiro GLP-1, o exenatida. Ele surgiu por meio de uma substância descoberta na saliva de um lagarto. Foi a partir disso que transformaram um mecanismo fisiológico de um animal em uma mólecula para tratamento em humanos”.
Saiba Mais
A descoberta
Um estudo publicado na Nature Metabolism identificou uma molécula chamada pTOS no sangue de pítons após grandes refeições. Essa substância chamou atenção porque pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos contra a obesidade.
Diferente dos humanos, que comem várias vezes ao dia, as pítons passam longos períodos sem comer e depois fazem refeições grandes. Esse comportamento extremo ajuda os cientistas a entender melhor o que acontece no organismo após a alimentação.
O que é o pTOS e como age
O pTOS é produzido a partir de um aminoácido presente nos alimentos (tirosina), com ajuda das bactérias do intestino. Atua diretamente no cérebro, ativando uma região chamada hipotálamo, responsável por controlar a fome. Na prática, isso significa que o pTOS ajuda a “avisar” o organismo que já é hora de parar de comer.
Nas pítons, seus níveis aumentam mais de mil vezes depois de uma refeição.
O pTOS também está no sangue humano. Após as refeições, seus níveis aumentam de 2 a 5 vezes, embora em alguns esse aumento seja bem maior. Isso indica que esse mecanismo de controle da fome pode existir em várias espécies.
Resultados em animais
Em testes com camundongos — que não apresentam a substância naturalmente —, o pTOS ajudou a diminuir a ingestão de alimentos e levou à perda de peso. Além disso, não causou efeitos colaterais comuns em tratamentos atuais, como náusea, perda de massa muscular ou queda de energia.
Relação com a alimentação
Os cientistas ainda investigam se o tipo de dieta, especialmente refeições ricas em proteínas, pode influenciar os níveis dessa substância e seu efeito no controle da fome.
Potencial para novos tratamentos
A descoberta abre caminho para novos medicamentos contra a obesidade e doenças metabólicas, possivelmente com menos efeitos colaterais do que os atuais, como os baseados em GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
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