Suplemento com cúrcuma pode causar danos ao fígado
Apesar dos benefícios, Anvisa e especialistas alertam para o consumo de cápsulas e extratos concentrados da raiz sem orientação
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Conhecida pelos seus efeitos anti-inflamatórios, a cúrcuma, ou açafrão-da-terra, popularizou-se nos últimos anos como um produto que vai além de dar tempero à comida. A raiz tem sido bastante usada até mesmo para “fortalecer” o sistema imunológico por meio de suplementos.
Só que, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), medicamentos ou suplementos alimentares, em cápsulas ou extratos concentrados, que contêm cúrcuma, podem causar danos ao fígado, conforme apontaram investigações internacionais. Os casos são raros, porém graves.
Karoline Amancio, hepatologista e gastroenterologista, alerta que os suplementos de cúrcuma podem provocar principalmente um tipo de lesão hepática medicamentosa, caracterizada por inflamação e dano direto às células do fígado, chamada de lesão de “padrão hepatocelular”.
“Na maioria dos casos, o quadro é autolimitado após a suspensão do suplemento, mas há relatos de evolução grave, incluindo insuficiência hepática (perda da função do fígado) e até óbito.”
Esse tipo de lesão, segundo a médica, induzida pela cúrcuma é considerado raro. “Mas tem sido observada com maior frequência devido ao aumento do consumo e à pouca regulação de alguns suplementos, que muitas vezes vêm misturados com outras substâncias.”
A gastroenterologista e hepatologista Jakeliny Vieira destaca que um paciente com lesão hepática pode apresentar no exame clínico sintomas como náuseas, anorexia, mal-estar, fadiga, dor no quadrante superior direito ou prurido. “Tais sintomas levam a uma investigação mais aprofundada com exames bioquímicos e exames de imagem.”
A nutricionista Júlia Carolina Lopes, mestre em Farmácia, reforça que todo paciente deve ter sua suplementação prescrita de forma individual, respeitando principalmente a dosagem e os medicamentos em uso.
“A cúrcuma em dosagens altas pode induzir a dores no estômago e queimação, principalmente para quem possui refluxo ou gastrite. Nesses casos, usamos uma dosagem mais baixa. Mas também precisamos ter um alerta para quem usa varfarina (anticoagulante) ou aspirina. Fora isso, é um excelente suplemento para redução da inflamação e atende à maioria dos casos.”
Pó usado na culinária não integra o alerta, diz Anvisa
Apesar do risco de toxicidade pelo uso de suplementação à base de cúrcuma, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que o pó usado na culinária é seguro e não integra o alerta, uma vez que não há evidências de risco associado ao consumo da cúrcuma como alimento e aditivo alimentar.
“Na alimentação, a cúrcuma é consumida em pequenas quantidades como tempero, ou por meio de molhos, como mostarda (algumas marcas possuem na composição), e, devido à sua menor quantidade, sua absorção também fica limitada. As quantidades usadas na alimentação costumam ser pequenas, geralmente cerca de meia a uma colher de chá por dia, e muito inferiores às doses presentes em suplementos concentrados”, esclarece a nutricionista Tathielly Polezes.
A nutricionista Júlia Carolina Lopes, mestre em Farmácia, reforça ainda que não é só porque a cúrcuma reduz a inflamação que ela serve para todos. Segundo Júlia, a raiz melhora os níveis de insulina, hemoglobina glicada, colesterol total, triglicerídeos, PCR, além de marcadores inflamatórios do estresse oxidativo, como a IL-6.
De acordo com a nutricionista, há diversos estudos que mostram os benefícios da cúrcuma na melhora de dores crônicas, como na artrite reumatoide, na tireoidite de Hashimoto, na depressão e até mesmo na doença hepática gordurosa não alcoólica.
“Existem mais de 5 mil estudos que indicam efeitos positivos da cúrcuma na saúde do fígado. A questão sempre será a procedência do produto, a dosagem e quem está utilizando”, alerta.
Saiba Mais
Alerta
- A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou um alerta de farmacovigilância para pessoas que utilizam medicamentos ou suplementos alimentares que contêm cúrcuma, também conhecida como açafrão.
- Investigações internacionais identificaram casos raros, porém graves, de inflamação e danos ao fígado associados ao uso desses produtos, principalmente quando consumidos na forma de cápsulas ou extratos concentrados.
Qual o risco?
- O risco está, segundo explica a nutricionista Tathielly Polezes, em algumas formulações que são desenvolvidas para aumentar a biodisponibilidade da curcumina, como associações com piperina (extrato de pimenta-preta) e complexos com fosfolipídios. Essas tecnologias aumentam a absorção intestinal, o que pode fazer com que o organismo receba quantidades efetivas muito maiores do que aquelas obtidas apenas pela alimentação.
Quem tem maior risco?
- Em teoria, qualquer pessoa pode desenvolver esse tipo de reação, porque muitas vezes ela ocorre de forma idiossincrásica, ou seja, não é totalmente previsível, explica a hepatologista Karoline Amancio. No entanto, alguns grupos merecem maior atenção: pessoas com alguma doença hepática prévia, idosos, mulheres e pessoas que utilizam múltiplos medicamentos.
Sinais e sintomas
- Nos casos com inflamação mais grave são observados, segundo a hepatologista Karoline Amancio, fadiga (cansaço), mal-estar, icterícia (pele ou olhos amarelados), urina escura, coceira no corpo, desconforto abdominal — principalmente no lado superior direito —, náuseas, vômitos, perda de apetite e, até mesmo, confusão mental.
- Mas o fígado, na maioria das vezes, sofre em silêncio. Em muitos casos, as alterações aparecem primeiro nos exames de sangue, antes mesmo de qualquer sintoma evidente. Essas alterações costumam ser detectadas em exames laboratoriais de rotina que avaliam o fígado, como a dosagem das enzimas hepáticas TGO e TGP.
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