A solidão estrutural da liderança
A hierarquia não altera apenas quem decide. Ela altera também a realidade que chega a quem decide
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
Siga o Tribuna Online no Google
Quanto mais alta a posição de um líder em uma organização, mais mediada tende a ser a informação que chega até ele. A hierarquia não altera apenas quem decide. Ela altera também a realidade que chega a quem decide.
A realidade sobe na organização por meio de interpretações sucessivas. Cada área lê os fatos à sua maneira, cada gestor reorganiza problemas para torná-los administráveis e cada nível da estrutura decide o que merece, ou não, subir o próximo degrau hierárquico.
Nesse percurso, problemas passam a ser enquadrados antes mesmo de haver solução para eles, quase uma antecipação de verdades. Trata-se de um processo quase automático de estabilização da informação. Evita-se alarmismo, conflitos são resolvidos antes de subir na hierarquia e ambiguidades operacionais acabam traduzidas em indicadores ou relatórios executivos.
Líderes, portanto, muitas vezes tomam decisões com base em representações da realidade. Poder e informação raramente caminham juntos de forma amena. Quanto mais autoridade uma posição concentra, mais a informação ao seu redor tende a ser reorganizada para caber nas expectativas da estrutura.
Isso ajuda a entender movimentos recentes no mundo corporativo. Grandes organizações passaram a questionar o tamanho de suas estruturas gerenciais. A Meta, por exemplo, iniciou uma ampla reorganização interna que reduziu camadas de gestão e levou ao desligamento de milhares de profissionais. Só em 2023 foram cerca de 21 mil cortes, parte do que Mark Zuckerberg chamou de busca por uma empresa “mais enxuta”.
Não se tratava apenas de redução de custos. Parte do diagnóstico era organizacional: estruturas muito hierarquizadas criam mais mediações entre a operação e quem decide. Quanto mais camadas, maior a distância entre o problema e a sua versão.
Esse movimento não está restrito à Meta. Empresas como Amazon, Google, Salesforce e outras companhias de tecnologia também passaram por reorganizações semelhantes, reduzindo estruturas intermediárias para acelerar decisões e diminuir o ruído informacional acumulado nas hierarquias.
Ao mesmo tempo, as empresas operam em um ambiente cada vez mais volátil. Avanços tecnológicos, competição global, pressão por inovação e ciclos econômicos instáveis ampliam a necessidade de decisões rápidas. Quanto maior a distância entre quem decide e o que acontece na operação, maior o risco de decisões baseadas em interpretações incompletas.
A solidão da liderança, deixa de ser apenas psicológica e passa a ser estrutural. A própria posição de autoridade altera o ambiente informacional ao redor de quem a ocupa.
Hierarquias não apenas organizam poder; organizam também incentivos. Pessoas aprendem rapidamente quais informações são bem recebidas e quais criam atrito. Más notícias circulam com mais cautela, dúvidas aparecem de forma indireta e problemas complexos são reformulados para parecerem controláveis.
O silêncio organizacional raramente é absoluto. Ele surge de uma realidade adaptada. Assim, as posições com maior responsabilidade decisória acabam sendo também as mais distantes da experiência direta da operação.
Por isso executivos experientes procuram criar atalhos informacionais, visitam unidades sem roteiro formal ou buscam outras percepções. É uma tentativa de reduzir uma distância estrutural.
No fim, liderar não é apenas decidir. É conseguir ouvir a realidade antes que a hierarquia a reorganize.
Continuo o assunto nas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes
Jaques Paes é Executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
MATÉRIAS RELACIONADAS:
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Entre Prateleiras, por Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
ACESSAR
Entre Prateleiras,por Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.