As profecias modernas
Não são previsões sobre o futuro. São interpretações que ajudam a produzi-lo
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Um dos sociólogos mais influentes do século XX, Robert Merton, conhecido como um dos fundadores da sociologia moderna, definiu a profecia autorrealizável como uma crença ou previsão que, mesmo sendo inicialmente falsa ou incerta, provoca comportamentos que acabam tornando-a verdadeira. Uma previsão cria um evento. O conceito não é metáfora. É mecanismo social documentado.
Uma previsão de recessão leva empresas a cortar investimentos e a recessão acontece. Investidores mudam estratégia, consumidores mudam hábitos, governos alteram políticas. É o sistema reagindo a uma narrativa.
A Amazônia não é o pulmão do mundo. E isso nada tem a ver com desmatamento ou outras causas humanas, mas com o fato de que o balanço líquido de oxigênio é próximo de neutro. É um exemplo de como slogans bloqueiam debate.
Partimos de uma presunção de culpa inexistente que nos faz acreditar que o caminho certo é sempre o que não estamos escolhendo. Quando isso acontece, opiniões tomam o espaço da técnica, do bem-estar coletivo e da segurança, até que o rigor cede à proibição. Não adianta termos rigor; passamos a exigir culpa.
Nos últimos dias multiplicaram-se nas redes sociais publicações que anunciam, em tom de urgência, cenários definitivos. Esse fenômeno nasce de um deslocamento entre a linguagem científica e a linguagem pública.
Entre inúmeras publicações recentes, duas chamaram atenção. Em frases curtas e manchetes categóricas, uma dizia que um relatório da ONU aprovado por mais de 150 países alertava que a economia atual levará ao colapso do planeta. Outra, citando o secretário-geral António Guterres, afirmava que a economia global precisa ir além do PIB para evitar um desastre planetário.
Dessas leituras nasce a tempestade perfeita. Discursos passam a afirmar que o desenvolvimento custa a vida do planeta, que o tempo de rever o capitalismo já acabou e que estamos jogando acréscimos civilizatórios. A frase de Guterres, porém, não nega o crescimento econômico. Ela aponta um limite metodológico: o PIB mede produção, não mede sustentabilidade, distribuição ou resiliência sistêmica. O problema não é crescer, é medi-lo mal.
Relatórios climáticos trabalham com cenários probabilísticos. Eles não dizem que o planeta vai colapsar. Dizem que certos trajetos aumentam riscos sistêmicos. Organizações multilaterais operam com linguagem mobilizadora porque lidam com decisão coletiva sob incerteza.
Desde os anos 1990 o PNUD usa o IDH justamente porque se sabe que PIB não é qualidade de vida. Renda pode subir enquanto desigualdade cresce, ambiente piora ou saúde estagna. PIB mede produção. Não mede prosperidade sistêmica. O debate não é crescimento versus planeta. É crescimento medido com métricas insuficientes. PIB importa, mas não basta. Indicadores moldam decisões. Decisões moldam sistemas.
Parte do discurso internacional critica crescimento baseado em extração intensiva. Outra parte reconhece que crescimento econômico reduziu pobreza extrema, ampliou expectativa de vida e expandiu acesso a saneamento e energia. O desafio, portanto, é o equilíbrio baseado em transformação estrutural, mas transformação estrutural custa caro, social e politicamente.
O problema não está na existência de riqueza, mas em discutir pobreza com estatísticas erradas. Concentração isoladamente não é métrica suficiente para julgar prosperidade social. É preciso distinguir riqueza absoluta de relativa, e pobreza de pobreza extrema.
Países ricos poluem mais porque industrializaram primeiro. Países pobres poluem menos porque produzem menos. Entre eles estão as economias em transição. No longo prazo, porém, países ricos tendem a reduzir poluição per capita. Crescimento pode aumentar desigualdade num primeiro momento e reduzi-la depois. Não é opinião. É padrão estudado desde 1955. Décadas depois, a lógica foi aplicada ao meio ambiente.
Coincidência ou não, isso ocorreu no mesmo período em que o PNUD passou a adotar o IDH.
A Londres de 1950 era mais poluída que a de hoje.
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Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras, pesquisador e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.