A guerra digital já começou
Transformação silenciosa reposiciona o poder global na tecnologia, enquanto o Brasil avança como usuário, mas ainda distante da produção estratégica
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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Vivemos um momento peculiar. Enquanto o debate público se concentra em crises políticas e econômicas, uma transformação muito mais profunda avança de forma silenciosa: a mudança no eixo do poder global. Ele deixa de estar baseado apenas em território, força militar ou recursos naturais e passa a se organizar em torno da tecnologia.
No século XX, a lógica era clara: quem controlava ativos estratégicos, especialmente o petróleo, exercia influência global. Esse modelo sustentou decisões e disputas por décadas.
Nas últimas duas décadas, porém, esse padrão foi reconfigurado. A digitalização da economia e o avanço das big techs criaram um novo tipo de ativo: menos visível, mas mais determinante.
Hoje, o poder global é definido por semicondutores, capacidade computacional, inteligência artificial e dados.
Esses elementos sustentam a economia digital e condicionam inovação, segurança e influência. A tecnologia deixou de ser ferramenta e passou a ser infraestrutura crítica.
Os semicondutores são um exemplo claro. Presentes em praticamente todos os sistemas modernos, são a base da inteligência artificial.
Sem acesso a eles, não há autonomia tecnológica. O que vemos não é apenas disputa comercial, mas uma corrida por independência estratégica.
A inteligência artificial amplia esse cenário. Mais do que eficiência, ela oferece capacidade de análise e decisão em escala, aumentando o poder de quem a domina. O controle tecnológico passa a influenciar não só a economia, mas também a informação e a percepção.
Nesse contexto, os dados emergem como o ativo mais valioso. Nunca produzimos tanta informação, e nunca foi tão estratégico saber utilizá-la. Quem domina essa capacidade amplia sua vantagem; quem não domina, torna-se dependente.
E é justamente aí que reside um risco relevante. Grande parte do mundo opera sobre tecnologias desenvolvidas por poucos atores globais. Isso cria uma dependência silenciosa, onde decisões passam a ser condicionadas por limitações tecnológicas.
O Brasil ocupa uma posição desconfortável e, em certa medida, conveniente. Possui mercado relevante e bons casos de uso, mas permanece distante do centro da disputa: o desenvolvimento da infraestrutura tecnológica.
Aprendemos a usar tecnologia, mas ainda não a construir em escala. Essa diferença define quem lidera e quem segue regras. Avançamos na digitalização, mas pouco evoluímos em áreas críticas como semicondutores, IA de base e infraestrutura computacional. O resultado é um protagonismo limitado.
Há um risco de acomodação. O País opera bem como consumidor sofisticado de tecnologia global, mas isso não reduz sua dependência estrutural.
E, nesse novo cenário, dependência é uma limitação estratégica.
O mundo já mudou. A disputa global não será definida apenas por recursos físicos, mas pela capacidade de desenvolver e aplicar tecnologia de forma estratégica.
O século XX foi definido pelo petróleo.
O século XXI será definido pelos dados.
E o poder estará nas mãos de quem souber transformar informação em decisão.
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