Granito do Espírito Santo vira bateria na Faixa de Gaza
Pedra capixaba guarda calor de até 915°C e ajuda usina solar de 30 MW a gerar eletricidade no território palestino
Uma pedra preta encontrada no Noroeste do Espírito Santo ganhou uma utilidade bem diferente da construção civil. O pó que sobra do corte do granito é usado na fabricação de baterias térmicas capazes de armazenar calor e ajudar na geração de energia até na Faixa de Gaza.
Gaza é um território palestino entre Israel, Egito e o Mar Mediterrâneo, marcado por graves problemas no fornecimento de energia, agravados pelos conflitos e pelos danos à infraestrutura.
Granitos pretos, como o São Gabriel, são encontrados em cidades como São Gabriel da Palha, Nova Venécia e Barra de São Francisco. No beneficiamento das pedras, o corte e o polimento geram um pó escuro, que antes era descartado.
Esse resíduo passou a ser aproveitado na fabricação das baterias térmicas bGen Zero, desenvolvidas com tecnologia israelense. Segundo Carlos Sena, vice-presidente do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), o material é transformado em pastilhas e colocado dentro de contêineres com tubulações.
“A bateria é produzida aproveitando o pó do beneficiamento de rochas gerado durante o processo de corte e polimento no Brasil”.
O sistema recebe energia e armazena o calor, que pode chegar a 915 graus celsius. A perda térmica é inferior a 1% em 24 horas. Depois, esse calor pode produzir vapor para movimentar turbinas e gerar eletricidade ou ser usado em processos industriais.
Segundo Sena, uma usina solar de 30 megawatts utiliza a tecnologia para ajudar no fornecimento de energia na região de Gaza.
A tecnologia é da empresa israelense BrenX, fundada por Avi Brenmiller, que desenvolve sistemas de armazenamento de energia térmica com rochas trituradas.
“Estamos construindo tecnologias que podem atingir altas temperaturas no meio do deserto. Este é apenas o começo da adoção em larga escala de sistemas de energia térmica”, afirmou Brenmiller ao site da empresa.
Para o setor de rochas, a tecnologia pode dar destino ao resíduo do beneficiamento. “O granito preto, como o São Benedito, de Ecoporanga, é uma fonte que retém muito calor. Destinação para esse resíduo é um problema que temos, e este é um projeto que cria uma alternativa com renda e vem nos ajudar”, disse Marcos Oliveira, gerente da Comil Cotaxé Mineração.
Utilização em usinas, fábricas e hospitais em diversos países
A expansão da Brenmiller Energy, recentemente reestruturada e rebatizada como BrenX, já é uma realidade, e a empresa criadora da bateria com a pedra do Espírito Santo está se expandindo, com plantas para atender a hospitais, usinas elétricas e indústrias de grande porte em diversos países, como Israel, Itália, Hungria, Estados Unidos e Brasil.
O vice-presidente do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), Carlos Sena, ressaltou o impacto renovável do projeto.
Além do uso em usinas solares e no aquecimento urbano europeu, como na Itália, e no Centro Médico Wolfson, em Holon, Israel, que recebeu diversos feridos do conflito em Gaza, a solução já opera no Brasil, em uma fábrica em Chapecó (SC), disse Sena.
“Eles reduziram o consumo de cavaco de madeira de 300 carretas por semana para apenas 30. Tiveram uma economia de 90% do combustível e um ganho no custo de operação, porque essa bateria não dá manutenção nem exige certificação semestral, como a caldeira”, pontuou.
Entenda
Pedra preta
O granito preto, como o São Gabriel e o São Benedito, é uma pedra natural muito resistente, que absorve e retém calor devido à sua cor escura e composição mineral. A São Gabriel recebeu esse nome exato por causa da cidade onde foi descoberta: São Gabriel da Palha, no Noroeste do Estado. A região onde o granito preto é encontrado inclui também Nova Venécia e Barra de São Francisco. O São Gabriel, por exemplo, custa, em média, entre R$ 200 e R$ 900 por metro quadrado, dependendo de fatores como o formato da compra (chapa bruta, peça cortada ou instalado com acabamento).
Bateria termoacumuladora
A tecnologia é desenvolvida por uma empresa israelense. Ela foi criada por um ex-CEO da divisão de Energia Solar Térmica da Siemens, chamado Avi Brenmiller. Ele tem uma empresa, que antes tinha o próprio nome, em Israel — hoje chamada BrenX —, e desenvolve essa bateria, chamada bGen Zero.
O funcionamento é o seguinte: a empresa compra o pó resultante do beneficiamento da rocha no Espírito Santo — processo de corte e polimento do granito.
Esse material é, então, reconstituído em pastilhas, que formam a bateria e são encapsuladas dentro de um contêiner, com tubulações passando pela estrutura.
Essas tubulações permitem diferentes formas de alimentação da bateria. Há, por exemplo, sistemas com varetas de cobre para alimentar a bateria com energia elétrica e armazenar calor. Também existem tubulações para a passagem de fluidos, como vapor ou outros fluidos térmicos.
A bateria consegue acumular calor a temperaturas de aproximadamente 915°C. Ela apresenta uma perda de calor muito baixa em períodos de 24 horas, inferior a 1%. Com isso, é possível reduzir bastante o consumo de energia. Ela é muito mais eficiente do que uma caldeira, principalmente por causa dessa baixa perda térmica.
Utilização
A bateria termoacumuladora já está instalada e sendo utilizada em diferentes países, incluindo Itália, Hungria, Estados Unidos e Brasil. Existe uma usina solar de 30 MW em Israel que utiliza essa tecnologia para auxiliar no fornecimento de energia para a região da Faixa de Gaza, além de um hospital que recebeu feridos dos conflitos nos últimos anos.
No Brasil, a bateria é utilizada em uma fábrica da JBS em Chapecó, Santa Catarina. Ela substituiu duas caldeiras, uma de 40 toneladas e outra de 60 toneladas, por um contêiner de 40 pés equipado com essa bateria.
Com isso, segundo os dados da operação, houve uma redução do consumo de cavacos de madeira de aproximadamente 300 carretas por semana para apenas 30. Isso representa uma economia de cerca de 90% do combustível utilizado para alimentar as caldeiras.
Reaproveitamento do resíduo do granito
O pó de granito é um passivo da indústria de beneficiamento de rochas. No caso do granito preto São Gabriel, existe essa alternativa de utilização do material. A empresa se interessa por esse resíduo e o utiliza como matéria-prima para a produção da bateria.
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