Não é burnout
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Inteligência emocional, desenvolvimento da resiliência, aprender a escolher melhor as palavras, evitar determinados assuntos, evitar conflitos. Um repertório que a convivência profissional passou a exigir, incluindo um domínio cada vez mais sofisticado daquilo que se pensa, do que se diz e, principalmente, do que se prefere não dizer. Uma espécie de imunidade organizacional.
Pouco a pouco, a maneira de trabalhar é reorganizada por uma questão de sobrevivência. Aprende-se a reconhecer o humor de determinadas pessoas antes de apresentar uma ideia, a escolher o momento adequado para discordar, a calcular as consequências de uma observação e a antecipar reações. Com o tempo, aprendemos a prevê-las com bastante precisão, embora continuemos sem compreender por que são toleradas.
A organização também desenvolve suas próprias maneiras de acomodar essas situações. Determinadas pessoas deixam de participar de reuniões, assuntos passam a ser tratados em conversas reservadas, decisões são antecipadas para evitar resistências e responsabilidades são redistribuídas sem que as razões apareçam formalmente. Aos poucos, o funcionamento da empresa incorpora o comportamento que deveria administrar.
As reuniões continuam acontecendo, as entregas são realizadas e os conflitos parecem diminuir. A aparente tranquilidade passa a ser interpretada como sinal de que as relações melhoraram, embora dependa de tudo aquilo que as pessoas aprenderam a evitar.
Uma organização pode investir em saúde mental, programas de bem-estar, pesquisas de clima e desenvolvimento de lideranças enquanto mantém pessoas cujo comportamento compromete sistematicamente o ambiente de trabalho.
Alguns profissionais passam a acreditar que são insubstituíveis. Conhecem processos, concentram informações, mantêm relações importantes ou entregam resultados que lhes parecem assegurar uma posição privilegiada.
Convencidos disso, agem como se não precisassem considerar as consequências de suas atitudes sobre os demais. A ausência de consequências reforça essa convicção.
Situações deixam de exigir explicações. Atitudes que antes causavam desconforto passam a ser tratadas como parte da personalidade de alguém. “Ele é assim mesmo” torna-se uma explicação suficiente para que tudo continue acontecendo.
Quem reclama recebe orientações para desenvolver resiliência. Quem demonstra insatisfação precisa aprender a lidar com diferenças. Quem se sente desgastado é aconselhado a cuidar da saúde mental. As competências individuais passam a ser utilizadas para administrar as consequências de decisões que continuam sendo adiadas.
Antecipar reações, calcular consequências e escolher o que dizer exige um esforço cognitivo contínuo. Parte da atenção que poderia estar dedicada ao trabalho passa a ser consumida pela necessidade de administrar essas relações.
Esse desgaste também contribui para o esgotamento profissional. Por vezes, o cansaço ao fim do dia vem de tudo aquilo que foi preciso evitar para conseguir trabalhar.
Enquanto a empresa decide quem não quer perder, aqueles que podem escolher decidem onde ainda vale a pena ficar. Alguns tentam colocar a cabeça no lugar. Outros começam a procurar um lugar para colocá-la.
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.