Quem guarda o Sol? A próxima infraestrutura da energia
Armazenamento em baterias pode equilibrar a oferta de energia solar e atender à demanda no Espírito Santo
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O êxito da energia solar criou um paradoxo. Os painéis geram mais no meio do dia, mas famílias, comércio e indústria nem sempre consomem mais nesse horário. À noite, quando a geração cai, a necessidade de eletricidade continua.
A próxima questão da transição energética, portanto, não é apenas produzir energia limpa, mas entregá-la no momento em que ela vale mais.
É isso que o armazenamento faz. A bateria não cria eletricidade; ela muda o momento em que a energia fica disponível. Pode carregar quando há sobra de geração e descarregar nos horários de maior demanda, reduzir picos, compensar variações e reforçar a continuidade de atividades sensíveis. Em termos econômicos, transforma uma fonte intermitente em flexibilidade.
O desafio tende a crescer. O PDE 2035 projeta fontes renováveis em mais de 85% da geração elétrica brasileira e, no cenário de referência, 78,1 GW de micro e minigeração distribuída até 2035.
Quanto maior a participação da energia solar, mais importante será coordenar o lugar, o horário e a confiabilidade de sua entrega.
Esse debate já saiu do campo das promessas. A Lei nº 15.269, de 2025, estabeleceu diretrizes para o armazenamento. Em 2026, a ANEEL abriu consultas para os primeiros leilões de baterias de grande porte e para novas regras de conexão. A transição exige uma rede mais inteligente, não apenas mais geração.
Isso não torna a bateria um investimento automático. O retorno depende do perfil de consumo, da tarifa, da rede, do custo e da finalidade. A EPE indica que alguns sistemas atrás do medidor podem ser viáveis, como alternativa a geradores a diesel na ponta, mas o retorno segue elevado em muitos casos.
Segurança, autoconsumo, redução de demanda e serviços à rede devem ser avaliados separadamente.
No Espírito Santo, a questão já tem escala. Em 2024, o Balanço Energético estadual registrava 69.388 micro e miniusinas solares, 922 MWp de potência instalada e geração média de 1.086,2 GWh. Isso muda a pergunta: não basta instalar mais painéis. É preciso aproximar a geração do momento em que famílias, empresas e serviços precisam da energia.
O potencial do Estado não está só na bateria individual. Indústrias, centros logísticos, comércio e propriedades rurais podem reduzir perdas, ganhar previsibilidade e evitar despesas com interrupções.
A política pública deve mapear onde o armazenamento gera mais valor, como áreas com expansão acelerada da geração distribuída ou cargas críticas. O que merece remuneração é o serviço: deslocar consumo, garantir potência, reduzir interrupções ou adiar reforços na rede.
Há também uma agenda de qualificação, manutenção e reciclagem. O Espírito Santo será mais competitivo se tratar a bateria não como um acessório do painel solar, mas como parte de uma infraestrutura que combina energia, produtividade e resiliência.
Quem guarda o sol não é apenas quem tem um telhado com placas: é quem consegue usar a energia no momento mais útil.
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