Tempo de escolhas
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Quando perguntamos a uma criança o que ela quer ser quando crescer, recebemos a resposta como um indício de vocação. A lista, porém, costuma ser formada pelas profissões às quais o mundo ao redor deu um rosto, um nome ou uma história.
A resposta será sincera, o que não significa que seja verdadeira. Ela revela o desejo, mas não as condições que o formaram.
Fazemos isso com frequência. A universidade chama de interesse. A empresa chama de engajamento. O instituto de pesquisa chama de intenção de voto. Cada palavra atribui ao indivíduo uma preferência que parece ter nascido inteira dentro dele.
O filósofo Spinoza associou a liberdade à compreensão das causas que nos determinam.
Uma decisão não se torna menos nossa quando reconhecemos as forças que atuam sobre ela. Essas forças continuam a participar da decisão, mas deixam de permanecer desconhecidas.
Temos consciência do que escolhemos muito antes de compreendermos as causas que nos levaram a escolher.
Antes de se converter em preferência, uma possibilidade precisa entrar no nosso campo de percepção. A repetição produz familiaridade. A autoridade concede credibilidade. O grupo estabelece o que pode ser aceito sem ameaçar o pertencimento.
Isso altera o peso das alternativas antes que nos seja perguntado qual delas preferimos. Quando chega o momento de decidir, elas já não chegam em igualdade de condições. Sem nome ou referência, uma possibilidade dificilmente participa da escolha. Pode estar disponível no mundo e continuar ausente para quem decide.
Depois de escolher, começamos a interpretar o mundo a partir da decisão tomada.
Procuramos razões que a confirmem, lembramos com mais facilidade os fatos compatíveis com ela e reconstruímos o passado para que o resultado pareça coerente. A escolha deixa de ser apenas uma consequência de quem éramos e passa a participar daquilo que nos tornamos.
Quando uma informação ameaça a coerência das nossas escolhas, rever uma opinião exige questionar nossas justificativas e a imagem que construímos sobre nós mesmos.
Dentro de um grupo, a dúvida ainda pode cobrar o preço do afastamento. Algumas ideias são preservadas porque continuam convincentes. Outras sobrevivem porque abandoná-las se tornou caro.
Às vésperas da eleição, quase todas as perguntas se concentram no resultado: em quem cada pessoa votará e para onde se deslocam as intenções de voto. A urna registrará a decisão. Não mostrará as informações que nunca chegaram, as fontes que deixaram de ser ouvidas, as alternativas descartadas antes de serem compreendidas nem o custo pessoal de contrariar o próprio grupo.
A escolha do caminho pertence ao indivíduo. O voto pertence ao eleitor. A formação daquele voto pertence também à família, à escola, às relações de confiança, às experiências acumuladas, aos meios de informação e às multidões das quais faz parte.
Só podemos chamar de escolha aquilo que a pessoa teve condições de conhecer, compreender e considerar possível para si.
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.