IA começa a mudar a forma como consumidores fazem compras e pagamentos
IA, biometria e novas funcionalidades do Pix devem transformar a forma como os brasileiros fazem compras
A palma da mão pode ser apenas mais um passo na evolução dos pagamentos. A próxima fronteira já começa a ser testada: agentes de Inteligência Artificial (IA) capazes de pesquisar, escolher e até realizar compras em nome do consumidor, segundo especialistas.
“A Inteligência Artificial vem sendo apontada como uma das principais fronteiras do setor, porque pode transformar não apenas a forma de pagar, mas toda a maneira como o consumidor descobre, escolhe e realiza uma compra”, afirma Leandro Lucas, diretor de Engenharia de Produtos da Elo.
Mais do que recomendar produtos, os agentes de IA poderão entender a intenção do consumidor, pesquisar e comparar ofertas em diferentes ambientes, considerar condições e formas de pagamento e conduzir a jornada até a conclusão da compra. Tudo isso, segundo Lucas, respeitando as autorizações e os limites definidos pelo usuário.
Para ele, o uso da Inteligência Artificial no comércio é uma das principais tendências para os próximos anos. Mas a mudança não deve ficar restrita à IA. Pagamentos biométricos e novas funcionalidades do Pix também devem fazer parte desse cenário.
“A biometria também terá um papel importante, tanto em experiências presenciais — como o pagamento pela palma da mão, pela digital ou pelo rosto — quanto em jornadas digitais, com autenticação biométrica integrada ao canal do lojista. Embora seja relevante, não necessariamente será a tecnologia mais próxima de ganhar escala”, afirma.
A Elo mantém um projeto-piloto de concierge digital em parceria com a Decolar, no qual testa uma jornada de consumo agêntico.
No Banco do Brasil, um teste de comércio agêntico realizado em março também colocou esse modelo à prova. Segundo Giuliane Paulista, executiva de IA da instituição, a infraestrutura necessária já existe. Entre os recursos estão a autenticação e a tokenização dos cartões — tecnologia que substitui os dados reais do cartão por um código, evitando exposição.
O desafio, agora, é definir as regras para quando a compra for feita por uma máquina em nome de uma pessoa. Quem estabelece os limites?
“Quando comprar uma coisa que o cliente não gostou, para quem ele vai reclamar? Como é que vai ser? Então, todos esses limites precisam ser estabelecidos, bem como os protocolos pelos quais essas transações serão feitas.”
Desafios para adoção da biometria da palma da mão
A tecnologia está pronta. Mas, para que pagar com a palma da mão se torne parte da rotina, ainda há desafios pela frente. Empresários citam desde a adaptação dos equipamentos e dos estabelecimentos até a necessidade de conquistar a confiança e mudar os hábitos dos consumidores.
“O principal desafio de uma nova tecnologia de pagamento não é apenas provar que ela funciona. É construir um ecossistema em que todos os participantes tenham interesse em utilizá-la”, explica Norberto Maraschin, vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia.
Uma das principais dificuldades está na implantação. Para que o pagamento pela palma se espalhe, é preciso que os estabelecimentos adotem a tecnologia e tenham equipamentos compatíveis com a leitura biométrica. A estratégia das empresas, porém, é reduzir a necessidade de troca das máquinas já utilizadas pelo comércio.
“Temos uma família de produtos de pagamento no mercado e o módulo de biometria já está integrado a um terminal de pagamento Android utilizado no varejo, o que reduz a complexidade de implantação e evita a necessidade de instalar um equipamento exclusivamente dedicado à biometria”.
A Treeal também trabalha para facilitar a adoção. Segundo João Carlos Santos, CEO da empresa, estão sendo desenvolvidos adaptadores que permitem acoplar o sistema de leitura da palma a máquinas de pagamento já existentes.
Mas não basta que o comércio esteja preparado. O consumidor também precisa aderir à novidade. “Eu acho que o grande desafio, além desse de implantar o hardware, é realmente a gente educar as pessoas”, diz.
Especialista vê Brasil na vanguarda
O Brasil está na vanguarda do comércio agêntico, afirma José Luiz Alves Pereira, diretor de Produtos e Soluções Digitais da Mastercard Brasil.
Em março, a bandeira realizou na América Latina transações envolvendo compras reais feitas por agentes de Inteligência Artificial, como supermercado, maquiagem e bens digitais, utilizando cartões de débito e crédito. “Nos próximos anos, o mercado brasileiro verá a consolidação de pagamentos em que a verificação de segurança ocorre em segundo plano”.
Mas para adotar qualquer novo meio de pagamento, os brasileiros exigem segurança digital, segundo uma pesquisa da Datafolha citada pelo diretor José.
Segundo Leonardo Araújo, CEO da Biostation é aí que está uma das vantagens da biometria palmar. “Diferente de outras, tem um padrão de segurança muito alto.”
Mas novas formas de autenticação e pagamento não eliminam, por si só, os riscos de segurança. No caso da biometria palmar, o especialista em segurança digital Otávio Lube afirma que a tecnologia pode, em tese, oferecer uma camada adicional de proteção justamente por identificar características internas do corpo.
Isso, porém, não significa que ela esteja livre de vulnerabilidades. À medida que a biometria palmar se tornar mais utilizada, novas formas de fraude também podem surgir, alerta. “Se for uma solução com pouco planejamento, fica mais suscetível a fraudes.”
Como é hoje e como será
Atualmente
Dinheiro
- Por muito tempo, foi a principal forma de pagamento. Em 2021, ainda era o meio usado com maior frequência por 42% dos brasileiros. Em 2018, eram 60%.
Cheque
- A primeira referência no Brasil é de 1845. Em 1953, já era equiparado à moeda corrente no comércio. Hoje, está em declínio: no 1º trimestre de 2020, foram cerca de 115 milhões de transações com cheque. No mesmo período de 2026, foram 27 milhões.
Cartões
- Chegou ao Brasil em 1956 e ganhou força nas décadas seguintes.
Pix
- Lançado em 2020, rapidamente mudou a forma de pagar. No segundo semestre de 2025, já respondia por 54,7% das transações, com 42,9 bilhões de operações.
Pagamento por aproximação
- As primeiras soluções começaram a aparecer na década de 2010.
- De 13,7% das compras presenciais com cartão em 2021 para
- 76,2% em 2026. Só no primeiro semestre deste ano, movimentou R$ 1 trilhão.
Biometria
- O rosto já é usado para pagar no Brasil. A Payface informa mais de 101 milhões de transações em 2026. Agora, a palma da mão começa a chegar ao mercado.
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