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ENTRE PRATELEIRAS

Omertà

Coluna é publicada no jornal A Tribuna

Jaques Paes | | Atualizado em
Entre Prateleiras

Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV

Em 1893, Emanuele Notarbartolo foi assassinado dentro de um trem. O crime ganhou dimensão nacional e, durante a investigação, testemunhas mudaram versões, outras se recusaram a colaborar. Emanuele havia sido prefeito de Palermo e diretor do Banco da Sicília.

No tribunal, a interferência assumiu o controle, fez o silêncio substituir a fala e decidiu quem decidiria, quem investigaria, quem poderia abrir uma porta ou mantê-la fechada. Criminosos, empresários, políticos e pessoas influentes mantinham relações que não terminavam onde começavam as instituições.

Havia quem protegesse o criminoso, intermediasse relações, exercesse influência política ou simplesmente não falasse. Não faltavam força policial, tribunais ou leis. Também havia relações capazes de decidir quem seria protegido, quem seria alcançado e até onde uma investigação conseguiria chegar.

Acordos não precisavam ser feitos, pois quem havia sido protegido sabia por quem.

Conhecer algo capaz de comprometer outra pessoa criava vantagem enquanto permanecesse restrito. Torná-lo público produzia uma consequência; mantê-lo reservado conservava a possibilidade de produzi-la. Quanto mais pessoas importantes estivessem ligadas pelo que sabiam umas sobre as outras, menos seria necessário transformar essa possibilidade em ameaça. Quem falasse poderia atingir não apenas aquele sobre quem falava, mas as relações construídas ao redor dele.

Estruturas desse tipo também dependiam de pessoas capazes de fazer circular influência entre lugares formalmente separados. Políticos continuavam sendo políticos. Empresários continuavam dirigindo suas empresas. Autoridades continuavam exercendo suas competências. Cada instituição mantinha suas regras, hierarquias e procedimentos. Parte do poder, entretanto, circulava pelas relações entre aqueles que estavam no topo delas.

O silêncio preservava essas relações. Expor alguém significava romper uma proteção que poderia envolver outras pessoas, outros favores e outras informações. Mesmo quando um dos seus estivesse envolvido, entregá-lo poderia ser entendido como violação do código que mantinha aquela rede funcionando. E assim o caso Emanuele se arrastou.

Em 1900, sete anos depois daquele assassinato, esse mecanismo foi descrito como “espírito de máfia”, e uma de suas regras de comportamento ficou conhecida como omertà: a recusa em colaborar com a autoridade. Dentro do espírito da máfia, não entregar os seus fazia parte de seu código ético.

Mais de um século depois daquele assassinato dentro de um trem na Sicília, em 15 de setembro de 2026, proteção, influência, informação e silêncio emergiram juntos em uma catarse. O código havia sido rompido.

A comparação com a máfia carrega uma contradição performativa. O “até” tenta estabelecer uma distância moral: a máfia está do outro lado. Mas, enquanto a palavra acusa, o argumento reproduz a lógica da qual tenta se distanciar. O eventual envolvimento de um dos seus não elimina o limite imposto àquele que poderia expô-lo.

O Poderoso Chefão nos ensinou a reconhecer esse mecanismo pela voz baixa, pelos ternos escuros e pela proposta que não podemos recusar. Ensinou também que “eu protejo você”, em alguns contextos, não é sinal de afeição.

Naquele 15 de setembro, depois de “Eu protejo você. Relação de máfia. [...] Não se pode submeter, mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido [...] a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil”, fomos lembrados de que “até a máfia tem ética”.

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Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV

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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.