Uso de telas e IA pode comprometer a memória, afirmam especialistas
Estudo mostrou que pessoas que usaram a Inteligência Artificial para escrever textos apresentaram menor envolvimento cerebral
Com a popularização de tecnologias e ferramentas de Inteligência Artificial (IA), encontrar um endereço ou elaborar um texto se tornaram tarefas mais rápidas. Porém, médicos dizem que uso excessivo pode prejudicar a memória.
E isso vai além da observação. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, de 2025, mostrou que pessoas que usaram a Inteligência Artificial para escrever textos apresentaram menor envolvimento cerebral durante a tarefa.
Além disso, esses participantes tiveram um desempenho inferior em aspectos relacionados à atividade neural, à linguagem e à qualidade dos textos.
“A preocupação é porque, quando usamos menos algumas áreas do cérebro, pode haver um impacto na nossa reserva cognitiva”, explica a neurologista Elida Maria Nunes Bassetti.
“A reserva cognitiva é como se fosse um banco que acumulamos ao longo da vida. Quando ficamos mais velhos, essa reserva pode fazer com que o cérebro permaneça funcional por mais tempo. Se isso for afetado, podemos ter problemas daqui a alguns anos”.
Por isso, o uso, segundo ela, deve ser pontual. “Não tem como deixar de usar essas tecnologias, porque elas fazem parte do dia a dia. Mas é importante que elas sirvam apenas de apoio”.
A neurologista Marina Tanure adiciona ainda que o uso excessivo dessas tecnologias afeta a atenção, que é um ponto essencial para que aconteça a consolidação da memória.
“A atenção é uma das portas de entrada da memória. Para lembrar bem de uma informação depois, primeiro precisamos prestar atenção nela e registrá-la adequadamente. Como o uso, além de excessivo é fragmentado, alternamos entre vários conteúdos e não focamos em nada”.
E quando esse uso se torna algo recorrente, acontece a chamada “terceirização cognitiva”.
“Usamos uma ferramenta externa para realizar algo que antes dependeria da nossa memória ou do nosso raciocínio. Isso se torna um problema quando passamos a terceirizar tudo, porque o cérebro é extremamente adaptável e se acostuma a viver nesse contexto”.
Mas, assim como algumas funções podem ser menos exercitadas, elas também podem voltar a ser estimuladas. O neurologista Gabriel Baltazar reforça que algumas atividades podem ajudar nesse processo.
“Quanto mais atividades diferentes forem feitas, mais campos diferentes da cognição são estimulados. Leitura, música, palavras cruzadas, escrita, assistir a um filme, aprender coisas novas, estudar novos idiomas e conhecer lugares diferentes são bons exemplos”.
Vídeos e manuais
Ao sentir que estava perdendo habilidades, como a criatividade, a assistente de projetos Hannahbella Queiroz, 23 anos, decidiu parar de usar IA.
Por isso hoje, quando precisa fazer algo no trabalho, ela recorre a vídeos, manuais e outros tipos de pesquisa.
“Sinto que, quando preciso ler, escrever ou pesquisar alguma coisa, aprendo muito mais porque estou fazendo aquilo por mim mesma”.
Atenção a idosos e crianças
O uso excessivo da Inteligência Artificial é ainda mais prejudicial para crianças e idosos. Por isso, especialistas recomendam uma atenção especial com esses dois grupos.
No caso das crianças, há uma preocupação maior por ser uma fase de desenvolvimento da cognição, segundo o neurologista Gabriel Baltazar.
“A criança precisa ser exposta a determinados desafios para conseguir desenvolver suas capacidades cognitivas. Se ela se acostuma logo cedo a ter respostas prontas pela IA, ela nunca vai conseguir desenvolver isso”.
Esse cenário, aos poucos, cria um processo de dependência. “De forma análoga, é o que acontece com o nosso corpo: se não o exercitamos, ele fica preguiçoso”, adiciona o médico.
Quanto aos idosos, a neurologista Marina Tanure, explica que o uso pode ser positivo se ajudar na autonomia, na comunicação e no processo de socialização.
Porém, o risco surge quando as tecnologias passam a substituir atividades que são importantes para a saúde cerebral.
“Em qualquer idade, o ponto central não é apenas “quantas horas de tela”, mas o que se faz durante esse tempo e o que está deixando de ser feito por causa dele”, conclui Marina.
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