Projeto social em Vila Velha transforma vidas através do esporte
“Um Golpe contra as Drogas” em Vila Velha oferece aulas gratuitas de taekwondo, rodas de conversa e acompanhamento
Desde 2021, o esporte tem sido usado como ferramenta de prevenção às drogas e transformação social em comunidades de Vila Velha. O projeto “Um Golpe Contra as Drogas”, da Associação de Prevenção e Assistência aos Dependentes de Drogas (APADD), oferece aulas gratuitas de taekwondo para crianças e adolescentes, além de rodas de conversa e acompanhamento social.
Mais de 350 jovens já passaram pela iniciativa, que atualmente atende 68 participantes, de 7 a 17 anos. Os alunos são moradores de bairros como Cristóvão Colombo, Ilha dos Ayres, Soteco, Glória e Itapuã, regiões que, segundo a assistente social e coordenadora do projeto, Liliane Almeida, convivem com diferentes situações de vulnerabilidade.
“Entre as principais vulnerabilidades estão a exposição ao uso e à circulação de álcool e outras drogas, situações de violência e conflitos territoriais”, afirma. Segundo ela, a realidade já chegou a interferir na frequência dos alunos. “Já houve situação de toque de recolher no bairro Ilha dos Ayres, fazendo com que algumas crianças não pudessem comparecer aos treinos.”
A proposta, porém, vai além da prática esportiva. Os alunos participam de conversas sobre prevenção às drogas, respeito, autoestima, escolhas e resolução de conflitos. “O projeto não trabalha a prevenção apenas por meio de rodas de conversa, mas por meio de uma ação contínua que une esporte, educação, convivência e acompanhamento”, explica Liliane.
Para a gerente da APADD, Shirley Avanza Vassoler Campos, a ideia surgiu justamente da necessidade de criar novas estratégias de prevenção. “Identificamos no Taekwondo uma importante ferramenta para trabalhar valores como disciplina, respeito, responsabilidade e convivência”, destaca.
Os resultados também aparecem nas competições. Entre 2023 e 2026, os alunos tiveram 92 participações em 14 campeonatos e conquistaram 84 medalhas, sendo 50 de ouro, 17 de prata e 17 de bronze.
“Mais do que os números, essas experiências proporcionam aos alunos a oportunidade de superar desafios, desenvolver confiança, disciplina, responsabilidade e perseverança”, ressalta Liliane.
O impacto também alcança as famílias. Um dos casos acompanhados pela equipe envolveu o pai de dois alunos, que enfrentava problemas relacionados ao uso de drogas. Após a aproximação com a APADD, ele iniciou tratamento e fez um curso de barbeiro. Hoje, trabalha como professor de capoeira e mantém uma pequena barbearia em casa.
Apesar dos resultados, a APADD enfrenta dificuldades para ampliar o projeto. “Uma das principais dificuldades é a captação de recursos e a busca por patrocinadores e parceiros”, afirma Shirley. A entidade também aponta a limitação do espaço físico como um obstáculo para atender mais jovens.
A aposta, portanto, é seguir usando o esporte como porta de entrada para oportunidades. “O principal legado é ter mostrado que o esporte pode ser uma importante ferramenta de prevenção, educação e transformação social”, resume Liliane.
Cursos profissionalizantes para ajudar no recomeço
Depois de usar o esporte como ferramenta de prevenção às drogas entre crianças e adolescentes, a Associação de Prevenção e Assistência aos Dependentes de Drogas (APADD), em Vila Velha, também aposta na qualificação profissional como caminho para a reinserção social de pessoas em tratamento contra a dependência química. Desde 2022, a entidade oferece cursos gratuitos que buscam ampliar as possibilidades de trabalho, geração de renda e autonomia dos participantes.
A iniciativa começou com o curso de barbeiro e, posteriormente, ganhou novas opções. Vieram as capacitações em manutenção de smartphones e trancista, até a criação do curso de eletricista residencial e predial. Ao todo, 110 pessoas já participaram das formações oferecidas pela APADD, sendo 73 certificadas nos cursos já concluídos.
O curso de eletricista é o mais recente. Criado a partir da experiência acumulada pela instituição em outras capacitações, o projeto “Energia para Recomeçar” começou em 2026, em parceria com o Governo do Estado, por meio da Rede Abraço e do Edital de Boas Práticas.
A primeira turma teve dez participantes, dos quais oito concluíram a formação e receberam certificação. Atualmente, outros dez alunos participam da segunda turma, cuja conclusão está prevista para setembro.
Segundo a assistente social Cristiane de Oliveira Barbosa, de 51 anos, a proposta nasceu da necessidade de preparar os participantes para a vida depois do tratamento.
“O Curso de Eletricista surgiu a partir do trabalho da APADD no eixo de Reinserção Social, que busca preparar as pessoas em tratamento da dependência de drogas para que, ao concluírem o tratamento, tenham novas oportunidades de trabalho, geração de renda, autonomia e recomeço”, explica.
A qualificação também é pensada para atender uma dificuldade comum entre os participantes: o acesso limitado ao mercado de trabalho. Muitos chegam ao tratamento sem uma profissão ou encontram dificuldades para comprovar conhecimentos que já possuem.
Um dos alunos da primeira turma, por exemplo, já tinha experiência prática com serviços elétricos, mas não possuía uma formação que reconhecesse oficialmente seus conhecimentos. Após concluir o curso, recebeu a certificação profissional e também a qualificação relacionada à NR-10, norma que estabelece medidas de segurança para atividades com instalações elétricas.
Pouco tempo depois, surgiu uma oportunidade fora do Brasil. O ex-aluno recebeu uma proposta de trabalho em Portugal e já está com a viagem marcada.
Para Cristiane, histórias como essa mostram que a formação profissional pode representar uma mudança concreta na trajetória de quem está em recuperação.
“Mais do que ensinar uma profissão, o projeto busca incentivar o recomeço, a autonomia, a geração de renda e a reinserção social”, afirma.
A atuação da APADD não termina com a entrega do certificado. Durante o curso de eletricista, os participantes também participam de rodas de conversa mensais sobre prevenção de recaídas. Os encontros abordam situações de risco, dificuldades enfrentadas durante a recuperação e estratégias para lidar com os desafios sem retornar ao uso de álcool e outras drogas.
Os alunos também recebem acompanhamento social da equipe. A intenção é identificar problemas familiares, pessoais ou financeiros que possam interferir na permanência no curso e no próprio processo de recuperação.
A entidade ainda oferece tratamento gratuito após a saída da comunidade terapêutica, permitindo que o participante continue sendo acompanhado durante o retorno à convivência social.
“Além da formação profissional, a APADD realiza mensalmente rodas de conversa sobre prevenção de recaídas, nas quais são trabalhadas situações de risco, dificuldades do processo de recuperação e estratégias para enfrentar os desafios sem retornar ao uso de álcool e outras drogas”, explica Cristiane.
A estratégia é importante porque o período posterior ao tratamento pode apresentar novos desafios. Sem o ambiente protegido da comunidade terapêutica, o participante volta a conviver com situações que podem dificultar a recuperação.
O caminho percorrido pela APADD começou em 2022, com o curso de barbeiro, que recebeu 30 inscritos e certificou 21 pessoas. Em 2023, a entidade passou a oferecer manutenção de smartphones, com 32 participantes e 26 certificados. No ano seguinte, o curso de trancista teve 24 inscritas e 18 certificadas. Já o curso de eletricista soma 24 pessoas atendidas nas duas primeiras turmas.
Para participar das capacitações, é necessário estar em tratamento contra a dependência de drogas há pelo menos três meses, com acompanhamento de uma unidade ou serviço especializado, além de demonstrar assiduidade e comprometimento com o processo.
A APADD identifica como principais dificuldades dos participantes a falta de recursos financeiros e o acesso limitado à qualificação e às oportunidades de emprego. Por isso, a instituição busca fazer da capacitação uma ponte para a autonomia.
“Os principais desafios são captar recursos, garantir a continuidade das ações, apoiar a permanência dos participantes e ampliar as oportunidades de trabalho, fortalecendo a formação profissional como instrumento de reinserção social”, destaca Cristiane.
Para a entidade, o maior resultado não está apenas no número de certificados entregues, mas nas novas possibilidades abertas para quem busca reconstruir a própria trajetória.
Desde 2022, a APADD vem ampliando o número de áreas de formação. O objetivo é oferecer mais do que uma profissão: criar condições para que pessoas em recuperação encontrem caminhos para trabalhar, gerar renda, recuperar a autoestima e construir um novo projeto de vida.
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