TDAH não é “falta de limites”
Não é “falta de limites”: TDAH é neurobiológico. Acolhimento e diagnóstico clínico precoce evitam comorbidades e melhoram o prognóstico
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Existe um julgamento silencioso que desaba sobre pais e mães em consultórios, escolas e reuniões de família: o de que o comportamento de seus filhos é fruto de uma “geração sem limites”. Como neurocirurgiã pediátrica e neuropsiquiatra infantil, ouço muito esse desabafo. No entanto, quando olhamos para o Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), esse diagnóstico social é injusto e cobra um preço alto demais das nossas crianças.
O TDAH não é um desvio de conduta ou um capricho moderno. Trata-se de um transtorno neurobiológico que afeta até 8% das crianças em idade escolar no Brasil. O cérebro de uma pessoa com TDAH funciona de um jeito diferente, especialmente nas áreas responsáveis pelo planejamento, foco e controle de impulsos. Insistir no mito de que a solução para a neurodivergência é “mais rigidez” é ignorar a ciência e empurrar milhares de crianças para o sofrimento invisível.
O perigo reside em deixar o transtorno sem assistência. Estudos recentes, que acompanharam dezenas de milhares de crianças, mostram que o TDAH não tratado é o principal catalisador para o surgimento de ansiedade e depressão na infância, as comorbidades muito à frente de outros transtornos comportamentais. A boa notícia que a ciência nos traz é que o acolhimento precoce muda essa rota: quanto antes o diagnóstico é feito, menores são as chances de a saúde mental desmoronar.
Mas o custo da nossa omissão não se limita à infância; ele cobra juros altos na adolescência e na vida adulta. Pesquisas de longo prazo revelam uma realidade dura: jovens que cresceram com TDAH não tratado apresentam riscos muito maiores de se envolverem com abuso de substâncias ilícitas, gravidez precoce, abandono escolar e até acidentes de trânsito por impulsividade. Não por acaso, a Sociedade Brasileira de Pediatria aponta o TDAH como a principal causa médica de fracasso nos estudos.
Por trás de estatísticas tão alarmantes, há um fator comum: a baixa autoestima crônica que se instala quando a criança cresce sendo rotulada de “preguiçosa” ou “irresponsável”. Ela passa a acreditar que o problema é o seu caráter, e não o seu neurodesenvolvimento.
No contexto do Dia Mundial do TDAH, celebrado no último dia 13 de julho, precisamos fazer uma autocrítica. O problema atual não é “excesso de diagnósticos”. A verdade é que sofremos com o diagnóstico mal feito, sem critérios e sem avaliação da realidade familiar e escolar do paciente.
A solução não é diagnosticar menos; é diagnosticar melhor, com critérios rigorosos e de forma precoce. O diagnóstico do TDAH é clínico e deve ser conduzido por profissionais de saúde qualificados. A partir dele, buscamos a construção de um plano terapêutico multidisciplinar integrando psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicopedagogia.
Acolher a neurodivergência não é “passar a mão na cabeça”; é oferecer as ferramentas certas para que um cérebro que funciona diferente possa, finalmente, prosperar.
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