Copa do Mundo 2026
De 1958 a 2026, um olhar pessoal sobre como o futebol vira conexão, pertencimento e pausa na rotina
Dr. João Evangelista
João Evangelista Teixeira Lima é médico formado pela Emescam, com pós-graduação pela PUC-RJ. Especialista em Gastroenterologia e Clínica Geral, é colunista de A Tribuna e do Tribuna Online, onde também apresenta o quadro “Doutor João Responde” na TV Tribuna, abordando saúde e prevenção com linguagem simples.
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Sempre tive dificuldades para entender muita coisa nesta vida. Coisas que aos outros parecem pequenas, perante mim elas se agigantam. Junho de 1958. Ao lado de minha casa, torcedores aguardam o resultado do último jogo. Como era previsto, Brasil sagra-se campeão mundial de futebol. Com apenas seis anos de idade, eu não entendo por que meu coração pula tanto dentro do peito.
Junho de 1962. Com dez anos de idade, lá estava eu, novamente, sentindo o coração bater forte. O Brasil conquista seu segundo título mundial.
Junho de 1970. Nessa Copa, tivemos dúvidas se aquilo era um time ou uma orquestra, misturando ritmo, melodia e harmonia, dentro do campo. Brilha a Seleção Canarinho, trazendo definitivamente a taça Jules Rimet para o Brasil.
Em seguida, tivemos um longo jejum de vitórias. Depois desse período, ganhamos o tetra em 1994 e o penta em 2002. Posteriormente, retornamos às derrotas.
Junho de 2026. Começa a Copa do mundo. Preparamos, novamente, o coração para nos fazer desfrutar daquilo que só o lúdico é capaz de trazer ao espírito.
Estar na Copa do Mundo representa o orgulho de um país. É um cerimonial vivido com a entrada em campo, o cantar do hino e o espetáculo que o imprevisível faz com a bola.
Surge um clima que mexe com uma nação inteira. A cada vitória, vamos sonhando com a chegada da grande final. Até os jogos dos outros são importantes, porque queremos imaginar quem serão nossos possíveis futuros adversários. Tudo é tenso e eufórico. Caso a Seleção Brasileira saia da Copa, perdemos a alegria e trazemos a tristeza de volta para casa.
A Copa do Mundo desperta algo profundo, porque ela cria conexão. É um dos poucos momentos em que pessoas completamente diferentes se unem pela mesma emoção, pela mesma esperança e pelo mesmo símbolo. Existe um sentimento genuíno de pertencimento.
Mais do que um campeonato, a Copa do Mundo representa encontros, lembranças e sentimentos que atravessam gerações.
Assistir aos jogos com parentes e amigos promove uma diluição temporária das solidões cotidianas. Esse momento atenua a angústia existencial, através da catarse coletiva de cada gol.
Batimentos cardíacos e estados de alerta se alinham, reduzindo o isolamento social contemporâneo.
O evento impõe uma pausa sagrada no tempo produtivo, legitimando o choro, o grito e a suspensão da rotina. Trata-se de uma trégua nas exigências sociais, permitindo que o cérebro descanse e se reorganize.
Fazer parte da torcida gera uma sensação de onipotência, combatendo o desamparo do isolamento. Ao compartilhar esse momento, o torcedor sente que integra um corpo gigante e invencível. A solidão existencial desaparece sob o eco do outro.
A Copa do Mundo lembra que o ser humano é feito de conexões. É o momento em que a mente e o coração se alinham para oferecer uma trégua ao peso do eu, permitindo o descanso na correnteza de um afeto comum.
A realidade que habita na mente não é mais verdadeira que a ilusão que mora nos sonhos.
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PÁGINA DO AUTORDoutor João Responde
A coluna “Doutor João Responde” é publicada todas as terças-feiras no Jornal A Tribuna e no Tribuna Online. O espaço trata de saúde e prevenção em linguagem acessível, onde esclarece dúvidas do público e comenta temas de saúde que estão em destaque no Espírito Santo.