Acolhimento a quem tem HIV: lição de solidariedade contra o preconceito
Família se sensibiliza com situação de portadores de HIV e mantém uma casa aberta para acolhimento e cuidados
Durante 25 anos, uma casa mantida por voluntários e doações se tornou refúgio para pessoas que perderam quase tudo: a renda, o vínculo familiar e, muitas vezes, a esperança. O Centro de Apoio ao Cidadão (CAC), que fica no Bairro de Lourdes, na Serra, acolhe, desde 2001, adultos soropositivos que encontram no local aquilo que faltou em muitos momentos da vida: cuidado.
Depois que o filho dos aposentados Antonio dos Santos e Luzia Aparecida Ferrete, de 79 anos, ainda estagiário de Serviço Social, passou a atuar em uma ala destinada a pacientes soropositivos de um hospital referência de Vitória, os pedidos constantes por doação de roupas começaram a despertar a curiosidade da família.
“Ele começou a pedir para mim e para minha esposa, roupas como camisa, calça, camisola, e até calcinha e cueca. E dizia que eram para os pacientes”, relembra Antonio.
Um dos episódios que o filho relatou marcou a família para sempre. Certa vez contou que uma paciente, de apenas 19 anos, não tinha nada para vestir. Estava completamente nua, apenas coberta com o lençol. “O lençol era tão fino e gasto que praticamente não cobria nada”.
A situação sensibilizou os pais, que são assinantes do jornal A Tribuna há 40 anos. “Vendo a luta dele, nós começamos também a nos mobilizar para ajudar”, diz Luzia.
O casal passou a arrecadar roupas e doações entre conhecidos e membros da Igreja São Camilo, na Mata da Praia, em Vitória. O movimento cresceu rapidamente. Em 2001, a família alugou uma casa com recursos próprios e fundou o Centro de Apoio ao Cidadão (CAC), o único no Estado dedicado apenas ao atendimento de pacientes com HIV.
“Foi um sufoco. Fizemos chá beneficente para comprar camas e cadeiras. Tudo aqui foi doado. Até hoje, o que tem aqui é tudo doado.”
Segundo a assistente social Suelde Rodrigues, de 62 anos, muitos pacientes chegam sem qualquer apoio familiar e acabam permanecendo na instituição por não ter para onde ir.
“Temos pacientes que não têm vínculo familiar, vieram de situação de rua. Na hora da alta, as pessoas responsáveis desaparecem”, relata.
Hoje, o CAC é a única instituição no Espírito Santo dedicada exclusivamente ao acolhimento de pessoas soropositivas adultas. Além da assistente social, a equipe da instituição é formada por quatro técnicos de enfermagem, cozinheira e voluntários.
Luzia Aparecida ferrete presidente da CAC: “Essa casa mudou a minha vida”
A Tribuna - Como se sente depois desses 25 anos?
Luzia Aparecida - Hoje estou mais tranquila, porque o tempo vai passando e a gente vai aprendendo a lidar com as coisas. Mas essa casa mudou a minha vida. Eu tinha uma experiência de vida totalmente diferente.
Aqui fui aprendendo outras coisas ao longo do caminho. A gente começou a enxergar realidades que antes não conhecia. Foi uma mudança para toda a família.
A senhora acredita que esse trabalho é movido pela fé?
Se não fosse Deus, acho que a gente não teria conseguido chegar até aqui. Porque foram muitos anos de luta, de dificuldades, de momentos em que a gente não sabia como ia conseguir manter a casa funcionando.
E eu agradeço muito também porque tivemos uma pessoa que ajudou a fundar a casa junto com a gente. Era uma amiga do nosso filho e quis ajudar de qualquer jeito. Ficou anos à frente de tudo.
Enquanto ela esteve com a gente, revolucionou tudo. Ia atrás das pessoas, conversava, pedia ajuda, organizava as coisas. Ela tinha uma força muito grande e ajudou demais no crescimento da casa.
O apoio da família faz diferença para a recuperação?
Quando a família acompanha, a pessoa tem mais chance de ficar bem e seguir vivendo por muitos anos. Agora, quando a família abandona, muitos acabam perdendo a vontade de viver. Tem paciente que chega aqui sem ninguém, sem visita, sem ter para onde voltar depois da alta. Então, além do acolhimento, a gente tenta dar carinho, atenção e fazer eles se sentirem cuidados também.
Entenda
CAC
O Centro de Apoio ao Cidadão (CAC) é uma instituição filantrópica que acolhe pessoas adultas soropositivas no Espírito Santo.
A casa funciona há 25 anos e atualmente é a única no Estado dedicada exclusivamente ao atendimento de pacientes com HIV.
Além do acolhimento, a instituição também oferece assistência social, alimentação e distribuição de cestas básicas para famílias.
Atendimento
Atualmente, o CAC atende 68 famílias de pessoas portadoras do vírus, que recebem acompanhamento e auxílio com cestas básicas.
A instituição também mantém sete acolhidos vivendo na casa.
Como doar
O Centro recebe doações para ajudar na manutenção da casa e no atendimento às pessoas acolhidas, além das famílias assistidas.
Contatos
Suelde: (27) 99958-1297
Luzia: (27) 98824-4226
E-mail: cacidadao@uol.com.br
Trabalho voluntário
A instituição também recebe voluntários para ajudar em diferentes áreas, como cozinha, limpeza, organização, atendimento e rodas de conversa com os acolhidos.
Os interessados podem entrar em contato pelos telefones citados.
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