A boa diplomacia deixa sempre uma porta aberta para a paz
No 4º aniversário do conflito, Rússia sente pressão interna e Ucrânia ganha fôlego com apoio externo; paz continua distante
José Vicente de Sá Pimentel
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Com o mundo voltado para a guerra nova no Irã, a velha guerra entre a Rússia e a Ucrânia chegou sem alarde ao quarto aniversário. Embora nenhum dos contendores divulgue suas baixas, estima-se que os combates já produziram 600 mil mortos e feridos na Ucrânia e o dobro disso na Rússia. Consta que a Ucrânia vem tendo alguns êxitos, ultimamente, enquanto a Rússia passou a sentir na própria carne efeitos mais agudos da guerra.
Amigos que moram em Moscou relatam que é comum deparar-se com ex-combatentes bêbados ou drogados perambulando pelas estações de metrô. YouTube e Whatsapp estão bloqueados; apenas alguns serviços das plataformas são autorizados, e funcionam com crescente dificuldade. Artigos importados escasseiam, a falta de peças de reposição prejudica o funcionamento até de elevadores. Alertas contra drones impactam horários de voos e tumultuam aeroportos.
A economia russa experimenta um progressivo desequilíbrio. Por ser prioritário, o setor militar segue de vento em popa, enquanto as empresas privadas sofrem com a falta de crédito e de fornecedores. As perspectivas não são as melhores.
Por seu turno, o governo ucraniano recebeu uma injeção de ânimo com a anunciada concessão pela União Europeia de um crédito de 90 bilhões de euros. É bastante para dar continuidade à luta. Para terminá-la, os EUA teriam de intervir, pois são o único país com cacife econômico e militar para impor uma negociação. Trump, porém, segue atolado no Irã.
Já passou da hora de negociar a paz. Para explicar, se não justificar a relutância de Putin e a obstinação de Zelensky, é preciso relembrar o contexto histórico. Já falei disso aqui, mas vale a pena detalhar um pouco mais o assunto.
A Ucrânia atual foi o centro do Império Russo dos séculos IX ao XII. Com a queda do Czar em 1917, o poder foi tomado pelos bolcheviques, que dominaram as regiões mais a Leste, sediando a capital em Carcóvia. Durante a II Guerra Mundial, tropas alemãs invadiram o território ucraniano, que foi defendido pelo exército russo. As perdas totais civis, durante a guerra e a ocupação alemã, são estimadas entre cinco e oito milhões de pessoas.
A Ucrânia só se tornou independente em 1991, junto com as outras 14 repúblicas socialistas soviéticas, que se beneficiaram da dissolução da URSS em dezembro daquele ano. Àquela altura, a preocupação na Europa era o que fazer com a OTAN, já que seu nêmesis, o Pacto de Varsóvia, tinha deixado de existir. Depois de muita celeuma, prevaleceu a tese da expansão. Vieram então as duas ondas expansionistas: em 1999, Hungria, Polônia e República Checa, e, em 2004, Bulgária, Eslováquia, Eslovênia e Romênia aderiram à Organização. Em 2008, o comunicado final da cúpula da OTAN anunciou que Georgia e Ucrânia também viriam a ser membros.
Presidente da Rússia desde 2000, Putin protestou fortemente, e a expansão ficou na geladeira diplomática por mais de uma década. Em julho de 2021, num artigo publicado no site oficial do Kremlin, intitulado “A histórica união de russos e ucranianos”, Putin afirmou que “o governo Zelensky é manipulado por forças externas” e advertiu que “nunca permitiremos que nossos territórios históricos e os povos próximos a nós sejam usados contra a Rússia”.
Cinco anos mais tarde, essa disposição persiste. Putin está convencido de que, caso a Ucrânia passe a integrar a OTAN, logo invocará o artigo 5 do Tratado, pelo qual um ataque contra um membro é considerado um ataque contra todos. Do ponto de vista da UE, se Zelensky cair, as fronteiras europeias estarão desprotegidas. Se Putin dominar a Ucrânia, em seguida invadirá a Polônia, e assim por diante.
As desconfianças de todos os lados atrapalham os esforços em prol da paz. A simpatia de Trump deu a Putin mais um argumento para ficar firme, ao passo que o desprezo dos governantes americanos pelos líderes europeus só faz aumentar o comprometimento destes últimos com a defesa de Zelensky.
A boa diplomacia aconselha deixar sempre uma saída aberta para acomodar a paz. Foi o que sugeriu o Rei Charles III em seu discurso desta terça-feira perante o Congresso americano. É um bom conselho. Se Trump vai ouvi-lo, são outros quinhentos.
JOSÉ VICENTE DE SÁ PIMENTEL, nascido em Vitória, é embaixador aposentado
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