“Só Deus sabe quando essa dor vai passar”, diz tia de capixaba morto na Ucrânia
Natural de São Mateus, Jardel Sipriano, de 23 anos, foi morto ao tentar salvar colega ferido. Família tenta resgatar o corpo
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A tia do capixaba Jardel Sipriano Caetano, de 23 anos, que o considera como um filho, por tê-lo criado desde os 5 anos, conversou com a reportagem de A Tribuna.
A Tribuna Por que o seu filho foi para a guerra?
Maria Caetano Ele me disse: “Mãe, se eu morrer lá, estarei realizando o sonho”. Mesmo que ninguém da família tenha apoiado. O Jardel sempre teve o sonho de viajar para fora do Brasil e tentar uma vida melhor. Ele dizia que, após a guerra, nunca nos abandonaria, mas que pretendia continuar morando fora.
O que ele disse no último contato com a senhora?
Um dia antes de ele ir para o combate pela primeira vez, ele disse que estava apreensivo. Falou que faziam essas ligações antes para se despedirem das famílias, para explicar para a gente sobre os riscos.
Como a senhora está neste momento?
Agora, a gente só sente saudade. Ele iria fazer 24 anos no mês que vem. Estou só pensando nele. Só Deus sabe quando essa dor vai passar.
Morador do Estado morre em combate na Ucrânia
O motorista Jardel Sipriano Caetano, de 23 anos, natural de São Mateus, Norte do Estado, morreu em combate ao lutar ao lado das tropas da Ucrânia contra o exército russo. Segundo a prima e irmã de criação de Jardel, a professora Ana Paula Caetano de Souza, de 35 anos, a família foi comunicada da morte dele na quarta-feira, dia 29.
Segundo a professora, Jardel viajou para a Ucrânia contra a vontade da família e só avisou que estava no país quando chegou lá. “Depois de uma semana que ele estava na Ucrânia, ele ligou e nos informou que estava em treinamento. Segundo ele nos informou, a primeira vez que ele entrou em combate foi no dia 12 de abril”, afirmou a prima.
Ana Paula contou que, no dia 19, recebeu um áudio de Jardel falando que ele e seus colegas de combate tinham sido feridos. “A voz dele estava fraquinha, ele pediu para orarmos por ele e disse para a minha mãe: ‘Tia, eu te amo’”.
Logo depois, um outro soldado, responsável por dar notícias aos familiares, entrou em contato com Ana e explicou que, apesar do ferimento, Jardel não corria risco de morte. Inicialmente, a informação foi de que ele estaria em um bunker.
No dia 29, a família recebeu a notícia de que ele estava morto por meio de um sargento brasileiro que serve ao exército da Ucrânia.
“Perguntei sobre o corpo e eles disseram que não conseguem recuperar. Essa é a nossa maior dor, não poder enterrar o corpo dele. O soldado me falou recentemente que o Jardel viu um amigo morto e, mesmo ferido, não conseguiu sair de perto do corpo. Ele acabou sendo alvo de um ataque de drone. Por não ter abandonado o amigo, para mim, ele é um herói”.
Ainda segundo a professora, a família descobriu que o consulado ucraniano só entraria em contato seis meses após o falecimento, para a emissão do certificado de óbito. Além disso, para conseguir o documento, seria necessário que alguém da família fosse até a Ucrânia.
Ana Paula contou que, até o momento, o Itamaraty não fez contato algum com eles para oferecer informações e suporte.
Segundo a prima, inicialmente, Jardel informou que receberia 2 mil mensais e, quando fosse combater, 30 mil. Porém, ela não soube explicar se o valor seria em reais ou em hryvnia ucraniano, a moeda local.
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