Coragem para apoiar um sonho
Entre dúvidas e julgamentos, a coragem de seguir os próprios sonhos e recomeçar quantas vezes for preciso
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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O cotidiano é curioso. Às vezes, no meio de uma rotina aparentemente comum, ele escancara coisas profundas sobre nós, sobre o outro e, principalmente, sobre as relações. Faço drenagem linfática regularmente — o corpo pede, depois de tanto tempo entre consultório, sala de aula e horas sentada. E é nesse espaço, que poderia ser apenas técnico que muitas conversas acontecem.
Foi assim que conheci melhor a história da Paulinha, uma profissional competente, enfermeira de formação, esteticista, e com um projeto de vida muito claro: cursar Medicina no Paraguai.
Ela já foi, inclusive, conhecer instituições, participou de congresso, voltou animada, cheia de planos. Um sonho consistente, pensado, desejado. Até que alguém olhou para ela e disse: “Pra quê isso? E se der errado?”.
Essa pergunta, ou melhor, a forma como ela é colocada, diz muito. Quando me contou, ela respondeu com uma tranquilidade que impressiona: “Se der errado, eu volto e começo de novo. Não é novidade pra mim recomeçar”. E não é mesmo. É alguém que já atravessou o País, que já trabalhou em contextos desafiadores, que já construiu caminhos do zero mais de uma vez.
E ainda assim, alguém decidiu questionar o sonho dela. Não o sonho em si, mas a legitimidade de sonhar. Existe uma diferença importante entre cuidado e desqualificação. Se há preocupação, ela pode – e deve – vir em forma de diálogo: “Você está preparada?”, “Pensou nos caminhos?”, “Como posso te apoiar?”. Isso é relação. Isso é presença.
Mas o que muitas vezes aparece é outra coisa: o corte. E é preciso dizer com clareza: o sonho do outro merece respeito. Não estamos falando de vontades passageiras, mas daqueles desejos que nos atravessam, que persistem, que fazem sentido ao longo do tempo. Aquilo que, se não for vivido, deixa uma sensação de incompletude.
Na Psicologia do Desenvolvimento, Erik Erikson nos ajuda a compreender isso ao falar dos estágios psicossociais. Na vida adulta, especialmente, lidamos com o conflito entre realização e estagnação. Caminhar em direção aos próprios propósitos está diretamente ligado à construção de sentido. Quando isso não acontece, a conta chega em forma de frustração, dúvida, questionamento sobre a própria trajetória.
E ninguém deveria interferir nisso de forma leviana. Freud já apontava que, muitas vezes, projetamos no outro aquilo que é nosso — nossos medos, limitações, frustrações. Quando alguém diminui o sonho de outra pessoa, é válido se perguntar: isso é, de fato, sobre o mim ou sobre quem fala?
Apoiar um sonho exige coragem. Desqualificar é fácil. Ao ouvir a Paulinha, a única coisa que fez sentido dizer foi: “É o seu sonho. Se você precisar ir, vá. Se precisar voltar, volte. O mundo não acaba em uma tentativa, mas pode ficar pequeno demais quando a gente não tenta”.
A vida não para. E a gente também não deveria parar. Principalmente por causa da descrença de alguém que talvez tenha desistido dos próprios sonhos.
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