Operação Mare Liberum: servidores suspeitos em esquema de R$ 86 bilhões
Apuração inclui despachante do Espírito Santo e aponta propina para liberar cargas irregulares no Porto do Rio de Janeiro
Siga o Tribuna Online no Google
Um despachante aduaneiro do Espírito Santo está entre os alvos da Operação Mare Liberum, que investiga um esquema de corrupção na liberação de mercadoria no Porto do Rio, confirmou a Receita Federal.
Ao todo, R$ 86,6 bilhões em produtos estão envolvidos no esquema de fraude e 25 servidores foram afastados. Na prática, auditores fiscais, despachantes aduaneiros e analistas tributários faziam uma “vista grossa” para que as mercadorias irregulares passassem pelo crivo da Alfândega.
No trâmite normal, produtos com nomenclaturas equivocadas no documento — e o registro correto é importante para o cálculo dos impostos devidos — ou que possuem dados de origem inconsistentes acabam sendo encaminhados para uma inspeção rigorosa e, com isso, sendo barrados, explica a delegada da Alfândega de Vitória, Adriana Junger.
Nesse esquema, as mercadorias importadas e selecionadas para os canais de maior rigor eram desviadas e liberadas indevidamente, mesmo após a identificação de inconsistências graves entre a carga física e os dados declarados.
O pagamento de propina era prática corrente dentro do esquema, com “valores vultosos pagos a servidores públicos, com total estimado na casa das dezenas de milhões de reais ao longo do período investigado”, informou a Receita em nota.
Com isso, a previsão é que bilhões de reais em impostos tenham deixados de serem recolhidos pela Receita Federal, além de uma infinidade de produtos que podem ter acessado o mercado contendo irregularidades ainda desconhecidas.
Vinhos, isotônicos e até óleo e gás estão entre os produtos envolvidos no esquema de corrupção, de acordo com matéria veiculada pela Rádioagência Nacional, do governo federal.
No total, foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão contra servidores da Receita Federal e despachantes aduaneiros, por determinação da Justiça Federal — a maior parte no Rio de Janeiro.
Procurada, a concessionária VPorts, que administra o Porto de Vitória, informou que nenhuma ação envolvendo a operação ocorreu no local no dia de ontem. A delegada da Alfêndega, Adriana Junger, também informou que nenhum servidor da entidade no Estado foi alvo da operação.
R$ 4,3 milhões em dinheiro vivo na casa de auditores
Mais de R$ 4,3 milhões em espécie foram encontrados por agentes da Polícia Federal nas casas de auditores fiscais suspeitos de envolvimento no esquema criminoso no estado do Rio de Janeiro. A informação é do jornal O Globo.
Em Niterói, no Rio de Janeiro, foram apreendidos US$ 358 mil (cerca de R$ 2 milhões, na cotação atual). Em Copacabana, na Zona Sul do Rio, foram encontrados R$ 233.750. Já na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, uma terceiro investigado mantinha cerca de US$ 166 mil (R$ 830 mil), escondido num piano, além de R$ 1.248.800, um total de mais de R$ 2 milhões.
Os agentes também encontraram pelo menos sete caixas do vinho Chateau Odilon.
A garrafa desse tinto, do Sudoeste da França, é comercializada por cerca de R$ 700.
De acordo com o órgão, foram identificadas quase 17 mil Declarações de Importação (DI) com suspeita de serem ilegais — documento eletrônico que formaliza a entrada de mercadorias no Brasil.
Operação entre as maiores da história contra corrupção
O esquema criminoso que movimentou R$ 86,6 bilhões em mercadorias no período de julho de 2021 a março de 2026 é considerado uma das “maiores operações de combate à corrupção aduaneira da história recente do País”, segundo a Receita Federal.
A investigação mapeou três frentes de atuação da organização. A primeira era o desembaraço direto de mercadorias parametrizadas nos canais vermelho e cinza, ignorando inconsistências e exigências legais.
A segunda envolvia o setor de óleo e gás (admissão temporária), com a criação de procedimentos artificiais para liberar embarcações e outros equipamentos sem a devida previsão na legislação aduaneira.
Já a terceira frente consistia em recebimento de vantagens indevidas pagas por operadores portuários. As investigações tiveram início a partir de mecanismos internos de controle e denúncias.
Entenda
Como funciona a fiscalização
O sistema Aduaneiro realiza uma primeira parametrização da mercadoria declarada, analisando se o produto, com suas características, está compatível com a faixa de preço praticada no período.
Essa análise considera variáveis como a cotação do dólar, o país de origem, o país de destino e até o cruzamento de informações com marcas e padrões de mercado.
Caso o sistema identifique inconsistências, a carga pode ser direcionada para diferentes canais de conferência.
O canal amarelo prevê a verificação documental; o vermelho inclui conferência física da mercadoria; e o canal cinza aciona um procedimento especial de fiscalização mais rigoroso.
Registro da importação
Para realizar a importação, o importador deve registrar a operação no sistema da Receita Federal, o Syscomex.
Nesse processo, são informados dados como a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) da mercadoria, suas características e o valor da operação. Ela consiste em um código numérico específico.
Essa classificação é fundamental, pois define o tratamento tributário aplicável e a forma de incidência dos impostos.
A operação também deve ser instruída, no mínimo, com três documentos essenciais: o conhecimento de embarque (marítimo), o Airway Bill (aéreo) ou o conhecimento de transporte terrestre.
Além disso, também são exigidos a Invoice, que corresponde à fatura internacional, e o Packing List, que detalha os itens contidos na carga.
Tributos incidentes na importação
Com base na NCM e nas características da mercadoria, são calculados os tributos devidos. Entre eles estão o Imposto de Importação (II), o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o PIS, a Cofins e o ICMS, este último de competência estadual.
Possíveis irregularidades
Diversas irregularidades podem ocorrer no processo de importação, muitas vezes relacionadas à tentativa de reduzir tributos ou burlar a fiscalização.
Entre os exemplos estão a subfaturação, quando o valor declarado é inferior ao real, e a falsa declaração de conteúdo.
Um produto pode ser declarado como sucata de cobre, quando na verdade se trata de cobre novo, com maior valor agregado.
Também é possível declarar uma mudança comum e, na prática, transportar itens valiosos, como obras de arte.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários