200 mil sofrem de transtorno que dificulta fazer cálculos
Especialistas reunidos em evento realizado em Vitória alertam que o diagnóstico da discauculia exige uma avaliação cuidadosa
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O medo da matemática pode ir além da dificuldade escolar. No Espírito Santo, cerca de 200 mil crianças e adultos podem ter discalculia, um transtorno de aprendizagem que compromete a compreensão de números e cálculos, e muitas vezes passa despercebido nas salas de aula.
O tema está entre os debatidos no Congresso Brasileiro de TDAH, que começou ontem e termina hoje em Vitória. Especialistas de todo o País têm discutido aspectos relacionados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e a outros transtornos de aprendizagem.
Entre as palestrantes está a neuropsicopedagoga Cláudia Pelegrini, que vai abordar hoje o tema “TDAH e discalculia: o desafio invisível da aprendizagem da Matemática”. Segundo ela, a discalculia é um transtorno com prevalência estimada entre 5% e 7% da população — o que no Estado representa cerca de 200 mil pessoas.
Mas a especialista enfatiza que nem toda dificuldade com números significa que a pessoa tenha a condição. “Fatores culturais também contribuem para a ideia de que a disciplina é naturalmente difícil. Existe uma crença muito difundida de que a matemática não é para todos. Muitas famílias passam isso de geração para geração.”
Para fechar um diagnóstico, Cláudia ressalta que é preciso uma avaliação cuidadosa. “O grande erro é aplicar um teste e dizer que é discalculia. É preciso avaliar o ambiente familiar, entender como funcionam as funções executivas — que envolvem memória de trabalho, planejamento e organização — e observar o desempenho ao longo do tempo”.
Essas funções também estão ligadas ao TDAH, o que pode gerar confusão no diagnóstico. “No TDAH, a dificuldade em matemática costuma oscilar de acordo com a atenção do aluno e tende a melhorar com intervenção. Já na discalculia, mesmo com apoio pedagógico, a dificuldade no processamento numérico continua presente.”
Segundo o neuropediatra e organizador do Congresso, Raphael Rangel, o objetivo do evento é ampliar o debate sobre o transtorno com base científica e combater estigmas que ainda cercam o tema.
“O TDAH é um transtorno de saúde mental bastante prevalente, chegando a ser de duas a duas vezes e meia mais comum que o autismo. Apesar disso, muitas vezes ele ainda é banalizado ou tratado de forma superficial. Para quem realmente tem o transtorno, os impactos podem ser significativos ao longo da vida”.
Saiba mais
Discalculia
- É um Transtorno do neurodesenvolvimento, de origem neurobiológica, que afeta o processamento numérico e simbólico.
- Afeta a capacidade de compreender, processar e manipular números, cálculos e conceitos matemáticos. Ele é persistente, mesmo quando se tem ensino adequado.
- Não está relacionada à inteligência, mas sim a uma dificuldade no senso numérico, afetando entre 5% e 7% da população.
Quando fazer avaliação
- Os critérios incluem: dificuldades persistentes há mais de seis meses em senso numérico, cálculo e aplicação matemática.
- Desempenho abaixo do esperado, com prejuízo funcional, confirmado por avaliação.
- Início na infância, podendo ficar mais evidente com o aumento das exigências.
- Dificuldades não explicadas por alguma deficiência intelectual, alterações neurológicas ou ensino inadequado.
Tipos de discalculia
- Verbal: Dificuldade em nomear números.
- Practognóstica: Dificuldade em manipular quantidades.
- Léxica: Dificuldade em ler números.
- Gráfica: Dificuldade em escrever números.
- Ideognóstica: Dificuldade em compreender conceitos numéricos.
- Operacional: Dificuldade em realizar cálculos.
Nem tudo é discalculia
- Especialistas alertam que nem sempre notas baixas, erros frequentes e lentidão em Matemática se tratam de discalculia.
- Problemas podem ser gerados por fatores como ansiedade matemática e crenças familiares de que Matemática é algo difícil, além de situações temporárias ligadas a fatores externos, TDAH, entre outros.
- Erros em diagnósticos aparecem por sintomas serem muitas vezes parecidos, queixas serem centradas apenas na matemática, confusão entre causa e manifestação e uso de apenas um teste para definição diagnóstica.
Confusão entre discalculia e TDAH
- Muitas vezes confundidos, ambos os transtornos envolvem disfunções nas funções executivas, impactam a memória operacional, a atenção e o planejamento, e geram prejuízo significativo em matemática.
- No entanto, no TDAH sem a discalculia, o cálculo falha porque a atenção falha. Já na discalculia sem o TDAH, os erros são persistentes, mesmo com mediação ou organização da tarefa.
- Quando há os dois, o prejuízo funcional é ampliado.
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