Guerra no Oriente Médio pode causar falta de diesel em abril, alerta associação
Importadores apontam que diferença entre preços trava compras externas e fazem alerta para possibilidade de desabastecimento
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A guerra no Oriente Médio, que atinge uma das regiões mais estratégicas para a produção e o transporte de petróleo no mundo, tem provocado forte volatilidade no preço do barril e acendido um alerta sobre possíveis impactos no abastecimento de combustíveis.
Nesse cenário de incerteza no mercado internacional, o Brasil — com impactos que também devem alcançar outros estados, como o Espírito Santo — pode enfrentar falta de diesel no início de abril.
O alerta foi feito na quarta-feira (11) pelo presidente da Associação Brasileira de Importadoras de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo.
À reportagem de A Tribuna, ele explicou que as importações do combustível estão praticamente paralisadas desde 28 de fevereiro por causa da grande defasagem entre os preços internacionais e os valores praticados pela Petrobras.
Quando essa diferença fica muito elevada, os importadores evitam trazer produto ao País, pois o diesel chega ao Brasil mais caro do que o vendido pelas refinarias da Petrobras. Em alguns momentos, a diferença chegou a cerca de 85%.
Na última quarta-feira (11), considerando o fechamento do mercado, a defasagem do diesel estava em torno de 66%, o equivalente a cerca de R$ 2,15 por litro abaixo da paridade de importação. No caso da gasolina, a diferença chegou a 34%, ou cerca de R$ 0,86 por litro.
Segundo Sérgio Araújo, regiões abastecidas diretamente pelas refinarias da Petrobras, concentradas principalmente no Sul e Sudeste, tendem a sentir menos os efeitos imediatos da alta internacional, já que a estatal tem mantido os preços sem reajustes, pelo menos até o momento.
Já áreas que dependem mais de importadores ou de refinarias privadas ficam mais expostas às oscilações do mercado externo.
Apesar da pressão sobre os preços, ele afirma que não há risco de desabastecimento de gasolina. Isso porque, quando o valor nas bombas sobe, o consumo tende a diminuir, especialmente devido à grande presença de veículos flex no País, que podem substituir a gasolina pelo etanol.
Liberação de 400 milhões de barris de petróleo
A Agência Internacional de Energia (AIE) concordou em liberar 400 milhões de barris de petróleo de reservas emergenciais, a maior liberação já feita, enquanto governos tentam conter uma alta nos preços de energia provocada pela guerra no Oriente Médio.
“Os desafios do mercado de petróleo que estamos enfrentando são sem precedentes em escala”, disse o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, em comunicado ontem. “Os países membros da AIE responderam com uma ação coletiva de emergência de tamanho igualmente sem precedentes”.
A decisão foi unânime, afirmou Birol, sem detalhar o ritmo em que o petróleo será liberado.
O petróleo chegou a quase US$ 120 por barril em Londres no início da semana, enquanto os fluxos pelo estratégico Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, permaneciam essencialmente interrompidos. Desde então, os contratos futuros recuaram — em parte pela expectativa de que os governos recorreriam às suas reservas de petróleo.
Na quarta-feira (11), o preço do petróleo chegou a cair, mas registrou alta. Por volta das 11h40, o Brent, referência internacional, era negociado a US$ 89,71 por barril, com alta de 2,18%, enquanto o tipo Texas (WTI) subia 1,97%, a US$ 85,09.
A AIE, que coordena liberações de estoques para países da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE) disse que seus 32 membros têm mais de 1,2 bilhão de barris em estoques públicos de emergência, incluindo a maior reserva, dos EUA. Há ainda outros 600 milhões de barris em estoques da indústria mantidos sob obrigação governamental.
A AIE já ajudou a implementar cinco intervenções desse tipo: na preparação para a Guerra do Golfo de 1991; após os furacões Rita e Katrina, em 2005; após o início da guerra civil na Líbia, em 2011; e duas vezes, em 2022, em resposta às interrupções relacionadas à guerra na Ucrânia.
Trump admite usar reserva
O presidente Donald Trump disse na última quarta-feira (11) que os EUA vão usar “um pouco” das suas reservas estratégicas de petróleo, após a Agência Internacional de Energia (AIE) anunciar que os países-membros recorreriam a esses estoques por causa da guerra contra o Irã.
“Agora mesmo, a reduziremos um pouco. Isso fará baixar os preços”, disse Trump em entrevista à emissora Local 12 de Cincinnati, Ohio, quando perguntado se recorreria à reserva estratégica de petróleo dos Estados Unidos.
Trump disse ainda que os preços do petróleo já estão baixando novamente, mas que os EUA ainda precisam concluir a guerra. “Vamos reduzir substancialmente o preço do petróleo. Mas temos que terminar o trabalho, certo?”.
Trump também se prepara para invocar poderes da era da Guerra Fria para abrir caminho à retomada da produção de petróleo na costa do sul da Califórnia, numa tentativa improvável de ajudar a aliviar a escassez global de petróleo.
O republicano deverá, em breve, recorrer à lei de produção para a defesa para se sobrepor a leis estaduais e facilitar a concessão de licenças para a Sable, empresa que busca reiniciar uma produção a partir de um conjunto de plataformas offshore na Califórnia. As negociações com as ações da Sable foram suspensas após os preços saltarem até 34% com a notícia.
Corrida contra alta de preços
Os governos europeus estão se mobilizando para conter a alta nos preços de energia e alimentos, enquanto a guerra no Oriente Médio ameaça provocar uma nova onda de pressão inflacionária. As medidas mostram o quanto a União Europeia leva a sério a ameaça de um novo salto inflacionário provocado pelo conflito no Irã, que praticamente interrompeu o fluxo de mercadorias e energia pelo Estreito de Ormuz.
Isso deixou o bloco exposto a uma competição intensa no mercado global, e os líderes da UE devem se reunir em Bruxelas na próxima semana para discutir, entre outros temas, como reduzir os custos de energia.
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