5.092 mulheres pediram ajuda à polícia este ano por agressão
Pedidos foram feitos após ameaças, lesões corporais, tentativa de homicídio e descumprimento de medidas protetivas
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Ameaças, descumprimento de medidas protetivas, lesões corporais, estupro e até tentativa de homicídio estão entre os 5.092 registros de violência contra a mulher feitos em janeiro e fevereiro deste ano.
O dado é o mais recente do Observatório da Segurança Pública, da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).
A delegada da Gerência de Proteção à Mulher da Sesp, Michelle Meira, observa que os primeiros sinais de violência, geralmente, são sutis. “Começa com uma falta de respeito, passa para ameaças até ter uma agressão física. Esse é o trajeto, digamos, um pouco mais comum. Não que não possa haver uma violência física imediatamente, mas não é a regra”, destaca.
Michelle Meira acredita que as mulheres estão se conscientizando de que a violência doméstica não é normal, e estão denunciando mais esses crimes.
Para Layla Freitas, advogada criminalista e presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB-ES, há uma dificuldade no cumprimento da lei, da estrutura física institucional do Judiciário, e a questão cultural, do machismo.
“Não adianta só você criar uma lei. Você precisa efetivar essa lei e trabalhar a ruptura cultural disso, por meio da educação e de palestras”, afirma Layla Freitas.
A história de uma vendedora de 45 anos, que precisou mudar de cidade para escapar de seu agressor, reflete a situação vivida por muitas mulheres. Ela tem uma medida protetiva de urgência contra seu companheiro, e o divórcio ocorreu em janeiro deste ano.
“Ele me agrediu e, dessa agressão, eu tenho uma perfuração no ouvido e meu braço direito lesionou. Escapei porque fugi”. Ela contou que tem a ajuda da Patrulha Maria da Penha, por meio da Guarda Municipal de Cariacica.
Michelle Meira destacou também o Projeto Homem que é Homem, que busca ensinar formas não violentas de lidar com conflitos interpessoais e familiares; as Salas Maria, espaços humanizados de acolhimento 24h em Delegacias Regionais a mulheres e filhos; e o Mulher Segura, lançado no final do ano passado, que é o monitoramento eletrônico de homens autores de violência doméstica.
“Eu fugi com as roupas do corpo”
Uma vendedora de 45 anos teve o ouvido perfurado e o braço direito lesionado após agressões de seu companheiro. A vítima tem uma medida protetiva contra ele há dois anos. No entanto, ela afirma que, mesmo após o divórcio, ocorrido em janeiro, vive com medo e conta com o apoio da Patrulha Maria da Penha.
A Tribuna — Como começou o ciclo de violência doméstica contra a senhora?
Vendedora — Fui morar com um homem que me jurou amor e falou que Deus tinha me preparado para ele. Quando fui ver, já estava num cárcere sem saber.
Inicialmente vivi agressões verbais e conversas difíceis que me deixavam triste e angustiada.
Como foi a escalada até as agressões físicas?
Tenho três filhas (uma de 29 anos, uma de 24 e uma de 23) de um relacionamento anterior. Eu não podia ter mais contato com as minhas filhas.
Ele me xingava quando eu ia atender o telefone, dizia que eu estava atrás de outros homens. Começou assim e depois ele me agrediu.
Como foram as agressões?
Ele me agrediu, e dessa agressão eu tenho uma perfuração no ouvido e meu braço direito lesionou.
Escapei porque fugi. Saí de casa com as roupas do corpo. Eu já tinha uma medida protetiva, mas ele jurou, falou que não ia fazer mais, que ele estava num momento mais difícil da vida dele e era para perdoá-lo. Isso foi em 2024.
Eu tirei a medida, nós reatamos e fomos para o interior do Estado. Na ocasião, eu pensei: “Ele vai mudar”. Mas nada foi diferente.
Como tem sido sua vida, após ter fugido dele?
Acredito que se eu continuasse com ele, eu morreria. Eu ia para a igreja ou ao médico só com ele.
Tenho uma medida protetiva, que ele quebrou em novembro do ano passado, numa igreja, e, desde então, me mudei quatro vezes.
Ele falou que se eu pedisse o divórcio, me mataria no mesmo dia. E se eu arrumasse uma outra pessoa, ele me mataria também. O divórcio saiu em janeiro e eu mudei para me esconder, para ele não saber.
Qual foi a importância de a senhora ter procurado a polícia e de ter conseguido a medida protetiva?
Tive um certo medo, mas falei: “Eu estou viva. Eu vou denunciar!”. Muitas pessoas ficam com medo de chegar até lá, porque dá uma sensação de que a lei não vai ser cumprida, mas foi. Acreditei na polícia especializada, no apoio da Patrulha Maria da Penha, da Secretaria da Mulher. E achei importante porque verdadeiramente funciona.
Saiba Mais
Violência contra a mulher
Registros
2026 (janeiro e fevereiro) - 5.092
2025 - 26.363
2024 - 23.848
2023 - 21.784
2022 - 19.414
Tipo de crime
Crimes diversos Lei Maria da Penha - 2.768
Ameaça - 1.047
Descumprimento da Medida Protetiva - 493
Lesão corporal leve -308
Lesão corporal - 168
Calúnia difamação e injúria -105
Importunação sexual -51
Vias de fato - 50
Perturbação da tranquilidade - 30
Tentativa de homicídio - 18
Danos - 13
Lesão corporal grave - 11
Estupro -9
Violação de domicílio - 7
Sequestro e cárcere privado -6
Constrangimento ilegal - 5
Apropriação indébita - 1
Extorsão - 1
Tentativa de Estupro - 1
Total - 5.092
Perfil das vítimas
18 a 24 anos - 825
25 a 29 anos - 760
35 a 39 anos - 707
30 a 34 anos - 673
40 a 44 anos - 650
45 a 49 anos - 465
50 a 54 anos - 261
55 a 59 anos - 206
13 a 17 anos - 133
60 a 64 anos - 122
65 a 69 anos - 78
70 a 74 anos - 65
75 anos e + - 48
0 a 12 anos - 25
Sem informação - 74
Cor da pele
Parda - 2.562
Branca - 1.527
Negra - 793
Intermediária - 127
Amarela - 49
Indígena -26
Sem informação - 8
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