As guerras americanas
Artigo analisa custos, interesses e incertezas da guerra entre Estados Unidos e Irã
José Vicente de Sá Pimentel
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A guerra contra o Irã completou uma semana sem muita explicação sobre porque começou, nem previsão de quando vai acabar. O que se vê na televisão e nas mídias sociais são imagens de iranianos fugindo dos bombardeios e correndo desesperados, como se fugissem do diabo, enquanto as autoridades americanas abrem sorrisos e declaram que estão vencendo, como se fosse um jogo.
Nos EUA, não é novidade a preferência pelo uso das forças armadas, em detrimento da diplomacia. Estudo da Universidade Brown estima que desde 2001 os EUA gastaram 8 trilhões de dólares em ações militares. Haja vista os fracassos no Vietnam, no Iraque e no Afeganistão, pode-se contestar que, mesmo para os americanos, o uso da força seja mais eficiente para resolver conflitos do que a diplomacia.
A guerra é uma opção dispendiosíssima. Especialistas estimam que, nos atuais ataques aéreos, 24 horas de guerra custam 890 milhões de dólares. Contando o dia de hoje, portanto, os americanos já gastaram mais de 7 bilhões de dólares. Quanto mais o governo americano estará disposto a gastar? Ou, por outra, quando se considera que uma guerra dessas chega ao fim?
Há alguns dias, os porta-vozes da Casa Branca davam a entender que o objetivo era matar o aiatolá e pôr fim ao regime dos aiatolás. Morto Khamenei, deram-se conta de que o governo do Irã não se baseia apenas num líder; o fervor religioso está na base e, para acabar com a resistência de tantos fanáticos, seria necessária uma invasão terrestre. Ora, o Irã tem 1,6 milhão de km e mais de 90 milhões de habitantes. A invasão redundaria, inevitavelmente, na morte de muitos soldados americanos.
O impacto na opinião pública dos caixões cobertos com a bandeira americana chegando no cemitério de Arlington seria nefasto para qualquer político. Para Trump, a probabilidade é que seria ainda pior, pois ele ancorou sua ascensão no Partido Republicano à solene promessa de não fazer mais guerras, ao contrário de Bush pai e filho.
Sempre marqueteiro, Trump evita agora o termo “guerra”. Fala em “operação” ou em “missão”, e muda de assunto. Não é fácil justificar. Desde os ataques aéreos de junho de 2025, o tempo corria a favor dos EUA, uma vez que o Irã estava enfraquecido no plano militar e atormentado no front político pelos protestos populares derivados dos sérios problemas econômicos internos. Alguns analistas acreditam que Trump teria sido persuadido por Netanyahu de que era conveniente aproveitar a janela de oportunidade oferecida pelos protestos para destruir o regime iraniano. E não teria sido só Netanyahu. Também o príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman teria intercedido contra Khamenei, com o qual tinha um péssimo relacionamento. O saudita está com o prestígio em alta na Casa Branca, desde que investiu 2 bilhões de dólares em negócios de Jared Kushner, genro de Trump.
Uma outra especulação, que parece excessivamente maquiavélica, vem, no entanto, aparecendo nas conjecturas de bons analistas. Trump planejaria estender a “missão” e enviar tropas terrestres para a zona de batalha, de maneira a convencer o Congresso a adiar as eleições de novembro e, se possível, emendar a Constituição, de modo a viabilizar um terceiro mandato. Em se tratando de Trump, nada se pode descartar.
Outra especulação, menos inverossímil, é que o sucesso da “operação” Maduro subiu à cabeça de Trump, que tenta repetir a dose. Quando diz que vai participar da escolha do sucessor de Khamenei, e que aceitaria um aiatolá moderado, Trump dá credibilidade a essa hipótese. O receio é que essa retórica irrite os iranianos e conduza ao resultado oposto, qual seja a escolha de Mojtaba Khamenei, filho mais velho do líder supremo, considerado mais inflexível do que o pai.
Não acredito que o ataque tenha sido soprado por parças israelenses ou sauditas. Em casos dessa gravidade, é mais provável que Trump ouça os ideólogos do governo e da Fundação Heritage. Estes mantêm o firme propósito de consolidar a hegemonia global dos EUA. Para tanto, monitoram as oportunidades de diminuir o acesso da China a fontes de energia. O Objetivo seria esse.
A reunião de Trump com os parças latino-americanos também se enquadraria nesse molde. O “escudo das Américas” objetiva reduzir a presença chinesa no “quintal” dos EUA. O Brasil não se oporia a um aumento de investimentos americanos, mas não se vê numa fila de beija-mão, e considera mais adequado tratar dos interesses mútuos numa reunião bilateral na Casa Branca. Espero que o convite venha logo, se ainda não chegou.
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