Pegar estrada à noite aumenta risco de acidente? Veja o que diz novo estudo
Pegar a estrada de madrugada para fugir do trânsito e ganhar tempo aumenta o risco de sofrer um acidente grave, segundo novo estudo internacional divulgado nesta sexta-feira, 30. O trabalho aponta que o risco de sofrer um acidente grave entre as 2h e as 4h da madrugada é até 3,5 vezes maior do que durante o dia.
A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Mauá de Tecnologia em parceria com a USP e a Universidade de Swansea, no Reino Unido, e publicada no Brazilian Journal of Medical and Biological Research. O trabalho foi baseado em dados da Polícia Rodoviária Federal e conclui que viajar de madrugada é um comportamento de alto risco, apesar de as estradas estarem muito mais vazias nesse período.
O problema, segundo os pesquisadores, é o sono; sobretudo para pessoas que não estão acostumadas a ficar acordadas de madrugada. De acordo com o trabalho, dirigir com sono é comparável a dirigir sob efeito de álcool em termos de risco. A recomendação dos cientistas é evitar esses horários sempre que possível.
“Muitas vezes, não se trata de dormir de forma exacerbada”, explicou Vanderlei Parro, professor do Instituto Mauá, principal autor do trabalho. “São casos do que chamamos de microssonos, uma piscada mais demorada. Uma perda de atenção de um segundo pode ser fatal, sobretudo se você estiver dirigindo um caminhão.”
O problema é especialmente grave no caso dos caminhoneiros, como destaca o estudo, porque, além de estarem dirigindo um veículo muito maior, muitas vezes não têm opção de horário ou optam pelo período noturno para andarem mais rápido, poupar combustível ou compensar atrasos.
“Existe uma preferência pelas viagens noturnas porque é a hora em que há menos fluxo. Os caminhoneiros viajam mais rápido e gastam menos combustível”, explicou a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Claudia Moreno, que também assina o estudo. “Precisamos ter uma política pública específica para isso; temos que ter mais áreas de descanso nas estradas, áreas seguras. Atualmente, temos paradas em média a cada três horas, mas isso não é suficiente.”
Segundo a pesquisadora, como a maioria dos caminhoneiros trabalha sob demanda de carga, muitas vezes eles não conseguem se preparar com antecedência para uma viagem noturna e dormir durante o dia, por exemplo.
“Um dos principais motivos pelos quais os motoristas, principalmente os de caminhão, não param para descansar ou tirar cochilos curtos é o medo de roubo e furto de carga”, aponta o trabalho.
“Resolver o problema é um grande desafio, até porque envolve questões econômicas, trabalhistas e outros vários interesses”, atesta Parro. “Mas, pelo menos, agora temos números concretos sobre o problema e saímos do domínio da opinião.”
O trabalho foi feito com dados das rodovias federais de 2015 a 2018. O número de acidentes nas vias federais por ano varia de 67 mil a 73 mil, segundo a PRF.
Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, em 2024, houve 37.150 mortes no trânsito, um aumento de 6,5% em relação ao ano anterior. Em média, é como se 100 pessoas perdessem a vida por dia.
Comentários