Bukassa Kabengele: “Dona Beja aprofunda os abismos da humanidade”
Ator e cantor Bukassa Kabengele destaca a quebra de paradigmas em relação a negros e mulheres. Também fala sobre sua luta na vida real
Apesar de ambientada no ano de 1815, “Dona Beja”, que vai ao ar às quintas e sextas na TV Tribuna/Band, tem mostrado personagens bem à frente de seu tempo.
A própria protagonista, interpretada por Grazi Massafera, é uma mulher poderosa que não se deixa abater por nada. Já os negros, que em boa parte das produções de época são retratados como escravizados e marginalizados, em “Dona Beja” têm suas riquezas materiais e culturais exaltadas.
Destaque para o coronel Paulo Sampaio, interpretado pelo ator Bukassa Kabengele, nascido na Bélgica e que passou a infância no Congo até se mudar para o Brasil.
Pai de Antônio Sampaio (David Junior), o grande amor de Dona Beja, ele construiu sua riqueza e tentou unir sua família, mas é casado com uma mulher racista.
“‘Dona Beja’ quebra paradigmas ao mostrar o protagonismo feminino e os negros com suas riquezas. Pela narrativa e pelo perfil dos personagens que saem dos padrões da normalização de mulheres como subalternas e por colocar negros em lugares complexos que aprofundam os abismos da humanidade também”, destacou o também cantor Bukassa em entrevista ao AT2. Ele está ainda no elenco “A Nobreza do Amor” e “Emergência Radioativa”.
Bukassa Kabengele ator e cantor: “Tudo serve como aprendizado”
AT2 - Você já tem quase 40 anos de carreira. Conquistou tudo o que queria?
Bukassa Kabengele - Não acho que tenha conquistado tudo o que eu queria. Na verdade, acho que, depois de muitos anos de luta, estou num ótimo momento para começar a realizar meus sonhos tanto na vida pessoal como profissionalmente. Estou maduro, mais seguro com a minha capacidade criativa. Já consigo sobrepor o conhecimento e a experiência ao vigor meramente físico.
Qual é o personagem dos seus sonhos?
Os personagens que trazem capacidade de crescimento como ser humano, criam desafios e conexão com o público são sempre desejados e por mim sonhados. Já fiz alguns, mas ainda tenho muitos para fazer na minha carreira.
Você se arrepende de algum trabalho que fez?
Não tenho arrependimentos, embora saiba que existam trabalhos que trazem mais resultados e reconhecimento. Mas, ao escolher, penso bem para não me arrepender. Tudo serve como aprendizado e experiência, mesmo as ruins nos fortalecem.
Em “Dona Beja”, você interpreta um homem rico. Há alguns anos, negros interpretavam escravizados ou personagens de renda mais baixa. Acredita que esse estereótipo vai ficar para trás?
Acredito que a luta seguirá para que não precisemos mais viver estereótipos nas telas, eles não têm nenhuma relevância para construção de imagens que dignifiquem a negritude e para construção de visões antirracistas e narrativas positivas.
Protagonismo e representatividade é qualidade e tempo de tela, onde temos possibilidade de humanizar personagens com coerência, respeito e responsabilidade; ainda que sejam vilões. Então, o problema é além de estereótipo de corpos pretos, mas o cuidado com as narrativas que os envolvem.
Já foi vítima de racismo?
Sim, mas nem sempre é visível. A complexidade do racismo à brasileira e estrutural nem sempre é evidente, mas cria marcas profundas. Exemplo: quando temos produções que querem tratar de problemática do negro e não sabem como lidar, por falta de letramento e interesse. Isso faz parte do racismo e acontece o tempo todo.
Você é engajado na questão do racismo?
A minha existência e comportamento por si já são um posicionamento político. A minha relação profissional à medida que luto pelo respeito ao nosso povo no set de trabalho, com argumentos e trazendo excelência, são as escolhas e estratégias de combate dentro de estruturas que ainda têm muita dificuldade em nos aceitar e receber por inteiros, enquanto artistas homens negros e mulheres negras. Eu sempre me coloquei de forma argumentativa em favor de minha origem e nossa dignidade no recorte étnico racial. Fui educado assim. Assim sou eu naturalmente. Engajado sempre.
Em “Dona Beja”, seu personagem é casado com uma racista. Acredita que exista esse tipo de pessoa na vida real?
A sociedade é racista e temos sérios problemas de desigualdade e injustiça por conta disso, e é claro que existem pessoas assim, e não são poucas. Nesse momento, a arte imita a vida, e não contrário.
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