Restaurantes adaptam cardápios para bariátricos e quem usa caneta para perder peso
Uso de medicamentos para emagrecimento inspira cardápios com porções menores e reforça a importância de acompanhamento nutricional
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Quem passa por uma bariátrica ou faz uso de medicamentos à base de GLP-1 (Ozempic, Wegovy e Mounjaro, por exemplo) tende a ter o apetite reduzido, tornando difícil até mesmo conseguir concluir uma refeição completa.
Foi analisando esse comportamento que chefs de cozinha do Reino Unido passaram a adaptar seus cardápios. E o movimento já chegou no Brasil.
No Estado, a chef Bia Delmaestro adaptou uma seção do cardápio de seu restaurante, o Caçarola Bistrot, a partir de sua própria experiência usando Mounjaro.
Ela, que precisará passar por uma cirurgia de artrose no quadril e por conta disso precisa emagrecer alguns quilos, passou a fazer uso da medicação indicada por médico endocrinologista e ortopedista, além de ser acompanhada por nutricionista.
A partir de muito estudo e de seu tratamento, Bia viu uma oportunidade de atender ao público que faz uso de canetas ou que por estilo de vida prefere porções reduzidas com preços menores.
No estabelecimento, que não trabalha com ultraprocessados, apenas com ingredientes naturais, a seção do cardápio recebeu o nome de Moun Menu, brincadeira fonética entre o medicamento Mounjaro e o possessivo francês mon (meu).
“Aqui priorizamos uma alimentação de qualidade. Ele já é adaptado para que a pessoa tenha uma boa dose de carboidrato, de fibras e de proteína. Um prato adaptado para quem tem pouca fome. Para adaptar o cardápio eu testei em mim mesma”, conta.
Já na padaria Monza, segundo a diretora Flavia Siqueira, em breve serão lançados um bolo de chocolate sem açúcar e um pão proteico, com foco no público em geral que busca por alimentos mais saudáveis.
Em 2027, a expectativa é que chegue ao mercado brasileiro uma “refeição completa” que reúna carboidratos, gorduras boas, fibras, vitaminas e minerais, atendendo de forma específica às necessidades dos usuários de GLP-1, de acordo com Alberto Moretto, sócio-fundador do Grupo Supley (responsável por marcas como Max Titanium, Probiótica).
“Mais do que um lançamento pontual, estamos estruturando uma frente consistente voltada a esse novo perfil de consumidor, entendendo que o avanço dos GLP-1 não é passageiro, mas sim um vetor relevante de transformação do mercado de alimentação e suplementação”.
Estratégia para evitar efeito rebote
O uso de remédios à base de GLP-1 tem provocado mudanças importantes no comportamento alimentar, mas também exige acompanhamento profissional para evitar riscos e garantir resultados sustentáveis.
A nutricionista e colunista de A Tribuna Gabriela Rebello destaca que o processo vai muito além da medicação e precisa estar alinhado a hábitos saudáveis.
Ela chama atenção para a importância de referências como o Guia Alimentar para a População Brasileira. Segundo ela, o documento orienta uma alimentação equilibrada, baseada em alimentos naturais e regionais, evitando ultraprocessados.
Durante o uso das canetas, efeitos colaterais como náuseas e redução do apetite são comuns e podem impactar a qualidade da alimentação.
“A pessoa tem uma redução muito grande do apetite e algumas delas, principalmente as mulheres, começam a sentir muitas náuseas”, explica.
Nesses casos, o acompanhamento médico e nutricional é essencial para ajustar doses e evitar complicações como desidratação.
A estratégia alimentar deve priorizar proteínas ao longo do dia, que podem ser complementada com suplementação e fitoterapias, que melhoram azia, náuseas e sensação de estômago cheio.
“Sempre alerto para o paciente sobre a importância de fazer três a quatro refeições por dia, todas elas reforçando a proteína”.
Gabriela também alerta para erros comuns, como cortar carboidratos. O macronutriente ajuda a manter massa muscular, e sua restrição pode, segundo ela, prejudicar inclusive o equilíbrio hormonal, especialmente em mulheres no climatério.
Outro ponto crítico é o risco de efeito rebote. “O organismo tem uma memória de peso e vai tentar de todas as formas recuperar isso que ele perdeu”, explica. Sem mudança de hábitos, ela alerta, que a fome pode retornar com mais intensidade após a suspensão do medicamento.
Calóricos não vão “sumir”
As canetas para perda de peso ainda possuem valor considerável – acima dos R$ 800 –, não sendo acessíveis para todos os públicos. Ainda assim, segundo levantamento do Instituto Locomotiva, 39% dos domicílios da classe AB registram uso delas, contra 30% nas classes CDE, evidenciando que a adoção já atravessa segmentos distintos.
Na avaliação do presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-ES), o economista Ricardo Paixão, mesmo que haja um aumento pela busca de alimentos mais saudáveis, com mudanças significativas no mercado – como migração de gastos para serviços ligados à saúde e bem-estar –, o consumo de alimentos rápidos e calóricos não deve desaparecer.
“Esse nicho dificilmente vai acabar. Ele pode sofrer uma oscilação, mas continua forte porque nem todo mundo consegue adquirir essas canetas”, analisa.
Essa transformação de mercado, segundo ele, ainda está concentrada em uma parcela da população. “São pessoas de classe média, com renda um pouco mais elevada, que conseguem adquirir essas canetas”, pontua.
Para grande parte da sociedade, afirma Paixão, o padrão alimentar permanece o mesmo.
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