Maus hábitos fazem disparar casos de doenças do intestino
Alimentação com ultraprocessados, poluição e mudanças no estilo de vida são alguns dos fatores para o aumento de casos
Reconhecido como um sistema que participa da regulação da imunidade, do metabolismo e de funções que podem influenciar a saúde mental, o intestino deixou de ser visto apenas como o órgão responsável pela digestão.
Ao mesmo tempo em que a ciência amplia o conhecimento sobre suas funções, doenças inflamatórias intestinais avançam no País, aumentando cinco vezes em 13 anos. Cerca de 30 brasileiros a cada 100 mil habitantes tinham uma doença inflamatória intestinal em 2012. Em 2025, eram 158. Entre as causas apontadas por especialistas estão os maus hábitos alimentares.
O salto foi identificado em um estudo que analisou dados de 337.539 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e apresentado ontem, no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC).
As principais doenças inflamatórias intestinais, segundo especialistas, são a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. Embora tenham características diferentes, ambas são crônicas e podem provocar sintomas como diarreia e dor abdominal.
Para Abel Quaresma, professor do curso de Medicina da Unoesc Joaçaba, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e diretor científico do congresso, as doenças – que durante muito tempo foram consideradas raras no Brasil – estão mais frequentes.
O motivo do crescimento, porém, ainda não está completamente esclarecido. O especialista explica que as doenças inflamatórias resultam da interação de fatores genéticos, imunológicos e ambientais. Entre os ambientais estudados estão alimentação com ultraprocessados, poluição e mudanças no estilo de vida.
Segundo Priscila da Paz Neves, coloproctologista da Rede Meridional, além do estilo de vida, o conhecimento sobre a doença contribui para o aumento do diagnóstico. “O estresse é um gatilho importante para o desenvolvimento das doenças”.
Diarreia frequente, com presença de sangue e muco nas fezes, anemia, emagrecimento e fadiga estão entre os sintomas das doenças, aponta Juliana Rossoni, coloproctologista e professora do curso de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
“Embora as doenças inflamatórias intestinais possam acometer pacientes de todas as idades, a maioria é diagnosticada jovem”.
Diagnóstico pode levar até 4 anos, dizem médicos
Entre o primeiro sinal de que algo não vai bem com o intestino e a descoberta de uma doença inflamatória intestinal podem se passar anos. No Brasil, pacientes levam, em média, de três a quatro anos para receber o diagnóstico de doenças como Crohn e retocolite ulcerativa, segundo especialistas.
Os sintomas como diarreia, dor abdominal, sangue nas fezes e perda de peso podem ser confundidos com outros problemas intestinais.
O atraso preocupa porque, principalmente na doença de Crohn, existe uma janela considerada importante para identificar e controlar a inflamação.
Segundo a coloproctologista Juliana Rossoni, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o diagnóstico e o tratamento realizados em até 24 meses após o início dos sintomas podem interferir na evolução da doença e reduzir o risco de complicações, cirurgias e hospitalizações.
“No caso do paciente que demora a ser diagnosticado ou que demora a instituir o tratamento adequado, as chances dele desenvolver complicações relacionadas à doença é muito maior. Por isso, é muito importante que o diagnóstico seja feito de forma precoce, e é nosso principal desafio”.
Em São Mateus, segundo Juliana, o ambulatório de doenças inflamatórias intestinais do Centro de Especialidades tem atualmente 106 pacientes cadastrados e atende uma região de 14 municípios.
Segundo estimativa baseada em dados de prevalência de 2020, seriam aproximadamente 436 pacientes com a doença na região abrangida pelo serviço. “Temos muitos pacientes subdiagnosticados ou que não estão tratando adequadamente”, destaca a médica.
Outro fator que contribui para a investigação mais demorada é que não existe um exame isolado capaz de confirmar todos os casos de doença inflamatória intestinal, aponta o médico Abel Quaresma, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia.
Ele explica que grande parte dos diagnósticos tem de ser feito por colonoscopia. “É um exame caro e de baixo acesso, com tempo médio de espera, por exemplo, na Amazônia, de até um ano pelo SUS”. Às vezes, são necessários outros exames, como biópsias e laboratoriais, além da análise de sintomas, diz Abel.
Doenças inflamatórias intestinais
As principais são a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.
A doença de Crohn pode atingir diferentes partes do aparelho digestivo, da boca ao ânus, enquanto a retocolite ulcerativa se concentra no reto e no intestino grosso. As duas são crônicas e exigem acompanhamento contínuo.
Sinais de alerta
Diarreia persistente ou recorrente, sangue ou muco nas fezes, dor abdominal, perda de peso sem explicação, anemia e cansaço podem indicar a necessidade de uma investigação.
Na doença de Crohn, fissuras, inflamações e outros problemas recorrentes na região anal também podem ser sinais de alerta.
Diagnóstico
O diagnóstico das doenças inflamatórias intestinais não é feito por um único exame, mas a colonoscopia é um dos principais deles.
A investigação considera os sintomas e o histórico do paciente e pode envolver, além da colonoscopia, exames de sangue e fezes, marcadores de inflamação, biópsia e exames de imagem. A combinação dos resultados ajuda o médico a identificar a doença e definir sua extensão e gravidade.
Tratamento
os primeiros 12 a 24 meses após o início dos sintomas são considerados uma importante janela de oportunidade para diagnóstico e tratamento, ajudando a modificar a evolução da doença e a reduzir o risco de complicações, cirurgias e hospitalizações.
O tratamento é contínuo e varia conforme o tipo, a localização e a gravidade da doença. Uma parcela dos pacientes precisa de medicamentos de alto custo, incluindo terapias biológicas.
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