Investigada ligação de mortes com canetas para perder peso
Especialistas explicam que perda de peso acelerada é fator de risco. Uso estético e de fórmulas manipuladas preocupa médicos
Siga o Tribuna Online no Google
Com seis mortes em investigação por pancreatite associada ao uso das chamadas canetas emagrecedoras, médicos apontam sinais que não podem ser ignorados, como dor abdominal intensa, náuseas e vômitos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu na segunda-feira (9) um alerta para riscos de pancreatite aguda decorrente do uso dos medicamentos – entre os quais a semaglutida (como Ozempic e o Wegovy), a tirzepatida (Mounjaro) e a liraglutida (como o Saxenda).
A gastroenterologista Lívia Pandolfi Tabachi explicou que a pancreatite é a inflamação no pâncreas – órgão que participa da digestão e do controle da glicemia.
“O principal sintoma é dor intensa na parte superior do abdômen, que pode irradiar para as costas, além de náuseas, vômitos, febre e distensão abdominal”.
Lívia reforçou que a pancreatite aguda é tratável e reversível se o diagnóstico for precoce.
Ela explicou, ainda, que a associação da pancreatite com canetas emagrecedoras ocorre principalmente por fatores indiretos e riscos já conhecidos.
“O emagrecimento acelerado, comum com o uso, pode levar à formação de pedras na vesícula. Esses cálculos podem migrar e obstruir o ducto pancreático, desencadeando a inflamação do pâncreas. Além disso, muitos pacientes já têm fatores de risco, como obesidade, diabetes tipo 2 e níveis elevados de triglicerídeos”.
Maria da Penha Zago Gomes, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pancreatologia, da Federação Brasileira de Gastroenterologia e professora aposentada da Ufes, explicou que essas medicações – principalmente se usadas em altas doses e intervalos não recomendados – podem causar pancreatite aguda.
A médica frisou que as “canetas” são “excelentes” para diabéticos e obesos, desde que usadas nas doses corretas, com a orientação médica. “Pena que o desejo pelo corpo perfeito, associado à ganância de alguns, faz com que essa medicação esteja sendo usada de modo inapropriado”.
A endocrinologista Lusanere Cruz também aponta a preocupação com a manipulação desordenada das medicações, sem qualquer avaliação de qualidade e acompanhamento do tratamento.
“O uso da medicação original, com acompanhamento médico sério e com indicação correta – não para pacientes magros e sem comorbidades usarem para fins estéticos – torna a pancreatite um risco muito baixo”.
Saiba Mais
Pancreatite
É um quadro de inflamação no pâncreas – órgão que participa da digestão e do controle da glicemia.
Essa inflamação pode ser aguda (de início rápido) ou crônica (de longa duração).
O principal sintoma é dor intensa na parte superior do abdômen, que pode irradiar para as costas, além de náuseas, vômitos, febre e distensão abdominal.
A pancreatite aguda é tratável e reversível se o diagnóstico for precoce, especialmente nos casos leves – 80% deles.
A inflamação tende a aumentar o tamanho do órgão e, se não tratada corretamente, pode levar à morte.
Alerta
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu na segunda-feira (9) um alerta para os riscos de pancreatite decorrentes do uso das chamadas canetas emagrecedoras.
O alerta ocorre após a própria Anvisa notificar seis mortes associadas aos medicamentos “agonistas” do GLP1. Isso significa que essas medicações “imitam” o hormônio natural (GLP-1) para controlar o açúcar no sangue, estimular a produção de insulina, retardar a digestão e reduzir o apetite.
Segundo a agência, de 2020 até 7 de dezembro de 2025, foram notificados 145 casos suspeitos de eventos adversos com o uso desses medicamentos, dos quais seis resultaram em morte.
Apesar do alerta, a agência afirma que os benefícios terapêuticos das substâncias ainda superam os efeitos adversos, de acordo com os usos aprovados na bula.
Mortes em investigação
Os casos suspeitos são:
2 associados ao uso de Ozempic.
3 associados ao uso de Saxenda.
1 associado ao uso de Mounjaro.
A análise final pode levar até anos. Até então os casos ainda são considerados suspeitos.
A Anvisa alerta, ainda, que apesar de conter o nome comercial na notificação, o caso pode envolver um produto falsificado.
Outros países
A pancreatite associada ao uso das canetas ganhou atenção internacional no início do mês, após um alerta divulgado no Reino Unido. No país, há 19 mortes.
As canetas são seguras?
Autoridades sanitárias e especialistas reforçam que os dados não apontam que é preciso suspender o uso das canetas emagrecedoras, mas destacam a importância da prescrição responsável e do acompanhamento médico.
Médicos reforçam que o uso com a indicação correta e produtos originais, com acompanhamento profissional, torna a pancreatite um risco muito baixo.
O que dizem as empresas
A Novo Nordisk, responsável por Saxenda e Ozempic, reforçou que há um aviso para efeitos sobre o pâncreas com uso de medicamentos da classe GLP-1 e que os pacientes devem ter acompanhamento médico.
Disse, ainda, que vários fatores de risco estão implicados no desenvolvimento de pancreatite, incluindo diabetes e obesidade.
Eli Lilly, responsável por Mounjaro, frisou que monitora os registros e que a inflamação no pâncreas é uma reação prevista em aviso na bula dos medicamentos, que descreve a inflamação do pâncreas como reação adversa incomum.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários