Falsos médicos criados com IA põem saúde de idosos em risco
Por meio de avatares, desinformação é espalhada por redes sociais e aplicativos de mensagens. Idosos são principais vítimas
Jaleco branco, linguagem técnica e conselhos que parecem confiáveis sobre doenças, medicamentos e tratamentos. Mas por trás de milhões de visualizações em vídeos que circulam nas redes sociais e aplicativos de mensagens estão supostos médicos que sequer existem.
Criados por Inteligência Artificial (IA), avatares têm espalhado desinformação e colocado a saúde de pessoas, principalmente idosos, em risco.
A geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia seccional Espírito Santo, Fernanda Sperandio Cott Paiva, revelou que é comum receber pacientes ou familiares trazendo informações de redes sociais para perguntar se são verdadeiras.
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“Muitas vezes, o conteúdo apresenta recomendações sem respaldo científico ou interpretações distorcidas de estudos. E o pior, prometendo tratamentos curativos ou milagrosos. No caso das pessoas idosas, esse risco pode ser maior porque elas frequentemente convivem com doenças crônicas, fazem uso de vários medicamentos e procuram alternativas para melhorar qualidade de vida”.
Segundo ela, uma orientação inadequada pode levar à interrupção de tratamentos eficazes ou até causar eventos adversos graves.
O professor de Neurocirurgia da Ufes e diretor científico da Associação Médica do Espírito Santo (Ames), Walter Fagundes, relatou que já viu paciente que não usou a medicação por algo que viu online.
“Já tive até paciente que desistiu de cirurgia por informações de redes sociais. Um ano depois, ele retornou e o operei. Às vezes, os vídeos trazem dica inofensiva sobre alimentação, mas outras vezes envolvem suspender medicação essencial”.
A cardiologista e presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia Regional ES, Daniella Motta da Costa Dan, afirmou que os impactos dessas informações que circulam podem ser significativos e, em alguns casos, graves.
“Há casos de suspensão ou uso inadequado de medicamentos essenciais, atraso no diagnóstico, agravamento de condições como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, além de gastos financeiros e falsas expectativas em relação à própria saúde”.
O que eles dizem
Preocupação
“Existem formas de identificar vídeos produzidos por IA, mas nem sempre é fácil para a população em geral. Por isso, é preciso desconfiar de vídeos sensacionalistas, que causam pânico, trazem alertas ou ainda uma resposta fácil para tema complexo.
A famosa frase “Os médicos não querem que você saiba...”, seguida de uma fórmula milagrosa para curar um câncer é um exemplo. A realidade é que a mentira é fácil e faz sentido. Já a verdade é complexa. Então é preciso buscar fontes confiáveis, sociedades médicas ou o médico de confiança”.
Riscos
“O maior risco é que vídeos muito bem produzidos – utilizando imagens, vozes e linguagem semelhantes às de profissionais de saúde – transmitam informações incorretas.
Isso pode levar pessoas a interromper tratamentos, utilizar substâncias sem indicação ou adiar a procura por atendimento. Em saúde, nenhuma informação encontrada na internet deve substituir a avaliação individual feita por profissional habilitado”.
Convincentes
“Vídeos com avatares de IA que se passam por médicos e misturam informações verdadeiras com exageros, pseudociência e dados inverídicos, de forma muito convincente, são extremamente preocupantes. Eles usam jaleco, voz calma, jargão técnico e até citam falsos casos clínicos.
Estamos tratando de orientação médica! E, às vezes, as pessoas têm dificuldade de reconhecer o que é verdadeiro ou não, especialmente os idosos, menos acostumados com essa tecnologia. Essa é uma preocupação real e crescente”.
Saiba Mais
Falsos médicos
- Vídeos produzidos por ferramentas de Inteligência Artificial (IA) usam avatares extremamente realistas, com aparência, voz e gestos semelhantes aos de médicos.
- Em alguns casos, o rosto de profissionais conhecidos são usados para dar “credibilidade”. O médico Drauzio Varella chegou a recorrer à Polícia Federal, no ano passado, após ter sua imagem usada na venda de princípios ativos que diziam ser milagrosos.
Medo para convencer
- Muitos vídeos costumam começar com frases alarmantes, como “se você tem mais de 60 anos, precisa saber disso”.
- Em seguida, apresentam supostas descobertas científicas escondidas, alertas sobre medicamentos tradicionais ou promessas de cura para doenças como diabetes, hipertensão, Alzheimer e problemas nas articulações.
- A estratégia é provocar medo e urgência para prender a atenção do público.
Verdade e mentira
- Uma das razões para o sucesso desses vídeos é que eles combinam informações verdadeiras com afirmações falsas ou sem comprovação.
Riscos
- Prejuízo financeiro – já que muitas vezes envolve a venda de algum tipo de solução, suplemento ou vitaminas.
- Possibilidade de abandonar tratamentos prescritos, interromper medicamentos importantes ou adotar substâncias sem eficácia e até perigosas para a saúde.
Sinais de vídeos falsos
- Promessas de cura rápida;
- Discurso alarmista e sensacionalista;
- Venda de um único produto como solução para diversos problemas;
- Falta de identificação clara do profissional.
- Alegações de que médicos ou a indústria escondem uma “cura secreta”.
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