Excesso de peso vira o principal fator de risco à saúde, aponta estudo
Estudo aponta que a obesidade ultrapassou a pressão alta como maior ameaça. Sedentarismo e má alimentação impulsionam os casos
O excesso de peso fez parte de uma trajetória de problemas de saúde enfrentada pela técnica de enfermagem Mércia Karlene Leão Sousa, de 61 anos. Em 2003, ela chegou a pesar 130 quilos, passou por uma cirurgia bariátrica e, depois, teve reganho de peso. Nesse período, descobriu uma arritmia e também que o coração estava aumentado.
O caso de Mércia ajuda a ilustrar um problema que ganhou ainda mais importância entre os brasileiros nas últimas décadas. Segundo um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, o índice de massa corporal (IMC) elevado se tornou, em 2023, o principal fator de risco à saúde no País, ultrapassando a pressão arterial elevada.
De acordo com os pesquisadores, o País conseguiu reduzir as mortes por infarto e por Acidente Vascular Cerebral (AVC), ganho atribuído ao controle da hipertensão e à queda do tabagismo. Mas o sobrepeso e a obesidade não seguem o mesmo caminho.
Para a endocrinologista e delegada da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), Mariana Guerra, as mudanças no estilo de vida, como o consumo de alimentos ultraprocessados e pré-prontos, além do sedentarismo, contribuíram para o aumento dos casos de sobrepeso e obesidade.
Mariana alerta ainda que a obesidade provoca uma série de outras doenças. “Ela causa hipertensão, diabetes e esteatose hepática, que causa câncer de fígado. Ou seja, a obesidade é uma doença muito relevante”.
Além de dieta e atividade física, uma das alternativas de tratamento apontadas por especialistas é o uso de canetas antiobesidade, tratamento utilizado por Mércia. No ano passado, ela começou um acompanhamento com uma endocrinologista e já eliminou 32 quilos. Com a perda de peso, exames também mostraram redução do tamanho do coração.
A cardiologista e presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Espírito Santo (SBC-ES), Daniella Motta, destaca que o excesso de peso precisa receber atenção antes que suas complicações apareçam.
Isso não significa, alerta a cardiologista, que a pressão alta tenha perdido importância. “Esses fatores frequentemente estão presentes na mesma pessoa e, juntos, aumentam o risco de infarto e AVC. Precisamos cuidar de todos eles, sem esperar que um problema se agrave para agir. Também é importante lembrar que o IMC não mostra tudo. A medida da cintura e a presença de outras condições de saúde ajudam a entender melhor o risco de cada pessoa”.
"Papai Pig"
Ex-sedentário
Aos 49 anos, o administrador e atleta profissional Edson Borges lembra que já chegou aos 118 quilos, além de ter as taxas de colesterol e triglicerídeos elevadas, devido a uma vida sedentária.
A virada ocorreu em 2012, quando a filha, então com 2 anos, o comparou ao Papai Pig, personagem de “Peppa Pig”. “Às vezes, a pessoa que está na obesidade não se enxerga dessa forma, a mente nos sabota”, relata.
Ele começou a praticar atividades físicas após uma aposta com amigos: quem faltasse ao treino pagaria a mensalidade do outro. “Fiz disso um hábito, além da necessidade de mudar”. Em 12 anos, perdeu 48 quilos sem medicamentos e se tornou atleta, completando 131 maratonas.
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