Eleições 2026 “Eleitores concorrentes podem ser amigos, sim!”
A frase é da psiquiatra Letícia Mameri, que diz que rivalidade política não impede amizade: rivais no voto podem seguir amigos na vida
Na urna, cada um escolhe seu candidato. Fora dela, a amizade pode falar mais alto. Em tempos de polarização, eleitores que apoiam projetos políticos diferentes mostram que é possível discordar sem transformar as divergências em motivo de afastamento.
Há 14 anos, os advogados Sérgio Araújo Nielsen, de 43 anos, identificado com a direita, e Ricardo Barbosa Mendonça, de 42, de esquerda, cultivam uma amizade que vai além das diferenças políticas.
Eles contam que as conversas sobre o tema fazem parte da relação, mas que o respeito prevalece. “Expomos o ponto de vista de cada um, mas tudo acaba em pizza. Temos nossos posicionamentos bem definidos”, conta, de forma descontraída, Sérgio Nielsen.
Os dois defendem que a afinidade não depende de pensar igual, e sim de respeitar as escolhas e opiniões um do outro. “Afinal, a democracia pressupõe diferenças, e a amizade não precisa acabar por causa delas”, disse Ricardo.
Amizade acima das divergências
A médica psiquiatra Letícia Mameri destaca que pessoas com posicionamentos políticos diferentes podem, sim, ser amigas. Ela afirma conhecer casos de pessoas próximas que mantêm uma relação de respeito, mesmo quando discordam nas escolhas eleitorais.
“Rivalidade na política não impede a amizade. Eleitores concorrentes podem ser amigos, sim! A amizade se constrói com afeto, confiança e experiências compartilhadas e permite discordâncias importantes”, afirma.
Segundo a especialista, a convivência tende a ser mais saudável quando o debate não se torna um teste de lealdade e quando há espaço para reconhecer limites na conversa.
O que agrava a polarização e como preservar vínculos
Letícia ressalta que a dificuldade aumenta quando a escolha política passa a definir tudo o que se enxerga no outro. “Na chamada ‘polarização afetiva’, a rejeição ultrapassa as ideias e os partidos e passa a atingir as próprias pessoas. O amigo acaba reduzido ao candidato que apoia”.
Para preservar os vínculos, ela reforça a importância do respeito recíproco. Entre atitudes que ajudam na convivência, estão:
- ouvir sem transformar toda conversa em disputa
- buscar entender as razões do outro
- interromper o diálogo quando ele se torna agressivo
“Isso, porém, não significa que alguém seja obrigado a manter uma amizade ou aceitar humilhações, discriminação e ameaças. Diferenças políticas podem ter um peso real nas relações e precisam ser tratadas com seriedade”.
Após o primeiro turno das eleições, a expectativa de parte dos eleitores foi substituída por frustração e manifestações intensas nas redes sociais.
Entre indignação, ansiedade e reações à disputa presidencial, internautas passaram a usar a expressão “psicose política” para descrever o envolvimento emocional com o resultado.
No entanto, a psiquiatra Letícia Mameri alerta que psicose política não é um diagnóstico médico reconhecido. “Psicose é um quadro clínico que pode comprometer a capacidade de avaliar a realidade e apresentar sintomas como delírios e alucinações”.
Segundo ela, estar irritado, preocupado ou defender uma posição política com intensidade não significa, por si só, apresentar esse quadro.
“O uso dessas palavras exige cuidado porque pode reforçar o preconceito contra pessoas com transtornos mentais. Quando psicose, surto ou histeria viram formas de ridicularizar alguém, condições de saúde passam a ser associadas a falta de caráter, incapacidade ou agressividade”.
O terapeuta familiar e psicopedagogo clínico Cláudio Miranda orienta que, para controlar a ansiedade diante de um resultado eleitoral, quem sofre demasiadamente nesses momentos deve reduzir o tempo de tela e de navegação nas redes sociais.
“Se o problema persistir, a pessoa deve procurar ajuda”.
Comentários