Amigo de Flávio, Willer Tomaz movimentou R$ 5 bilhões em bets em 2025
Advogado e amigo de Flávio Bolsonaro é apontado em nota técnica da Fazenda como maior apostador do país em 2025
Uma nota técnica do Ministério da Fazenda mostra que o advogado Willer Tomaz, amigo do candidato Flávio Bolsonaro (PL), foi o maior apostador em bets de todo o Brasil no ano de 2025 e aponta que a empresa Blaze não cumpriu com suas obrigações de fiscalização e controle que a autorizavam a funcionar no país.
O documento da Secretaria de Prêmios e Apostas, revelado pelo UOL e ao qual a Folha também teve acesso, afirma que Tomaz movimentou um total de R$ 5 bilhões em apostas no período e sacou mais de R$ 200 milhões —a maior parte desse montante foi transacionada dentro da própria plataforma, ou seja, valores ganhos, reapostados ou perdidos.
"[Ele] é por, larga margem, a pessoa com maior volume somado de depósitos e saques em plataformas autorizadas no Brasil em 2025, totalizando cerca de R$ 350 milhões nessas operações —mais de 60% a mais que a pessoa que figura na segunda posição dessa lista", diz a nota, de outubro deste ano.
A PF (Polícia Federal) investiga essas movimentações e suspeita que possam ser uma forma de ocultar a origem de recursos ilícitos.
Procurado, o advogado disse que o tema é "objeto de ação judicial em curso", que "os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal", mas que as cifras apresentadas pela Fazenda "não correspondem à realidade".
"Causa estranheza que um documento técnico de órgão federal, contendo dados protegidos por sigilo, chegue à imprensa justamente em período eleitoral", completou.
Willer Tomaz é amigo de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL. Tanto Tomaz quanto o senador são investigados no mesmo inquérito por possível envolvimento com fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Procurada, a campanha de Flávio disse à reportagem que o senador não é investigado no Supremo e que os autos que chegaram ao STF ainda não foram convertidos em inquérito, já que ainda não houve manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da República) ou qualquer decisão judicial a respeito.
Como a Folha de S.Paulo mostrou, uma holding do ramo de apostas online de propriedade de Tomaz pagou voos entre Portugal e França em 2025 para Flávio. Na época, o candidato disse que sua relação com Willer é exclusivamente de amizade. "Associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos", afirmou.
O Ministério da Fazenda abriu um processo administrativo contra a Blaze para investigar violações relatadas por Tomaz, em ação pedindo reparação pelo dinheiro perdido em rodadas de blackjack e roleta online. A empresa está sujeita a multa de até R$ 2 bilhões.
A Foggo Entertainment, detentora dos direitos da marca Blaze no Brasil, afirmou na época que não comenta processos judiciais em andamento. "A companhia reitera seu compromisso com a transparência, a ética e a estrita observância do arcabouço legal vigente no país."
A nota técnica do Ministério da Fazenda analisa os instrumentos de segurança da Foggo e afirma que a empresa mentiu aos órgãos de controle, não respondeu corretamente a questionamentos feitos, não informou dados de seus apostadores como manda a lei e chegou a enviar informações em códigos e em inglês.
Além disso, ignorou comunicações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e falhou na categorização de seus clientes, já que o próprio Tomaz, por exemplo, era enquadrado como uma pessoa de risco médio, quando tinha elementos para se enquadrar na categoria mais alta.
A Blaze sequer selecionava "para análise [de integridade] as operações de clientes com vultosos volumes quantitativos e financeiros de operações —um deles a pessoa com os maiores volumes de depósitos e saques em plataformas de apostas no Brasil em 2025—, sendo que muitas dessas operações se enquadravam nas situações merecedoras de atenção especial", diz a análise federal.
Procurada por email e mensagem na manhã desta terça (20), a empresa não se pronunciou.
Segundo o documento, a Blaze pode ser multada pela conduta e inclusive responsabilizada em caso de irregularidade cometida por Tomaz. A secretaria recomenda avaliar a suspensão da atividade da empresa.
Como exemplos de transações atípicas que não foram identificadas pela casa de aposta, a secretaria aponta que no dia 30 de outubro de 2025 o advogado fez cinco depósitos de R$ 500 mil em apenas uma hora de manhã, depois repetiu a operação de tarde e fez mais quatro, de novo em uma hora, de noite —totalizando, de acordo com o documento, R$ 7 milhões.
No dia seguinte, segue o relatório, Tomaz fez 12 saques de R$ 500 mil em apenas 18 minutos —R$ 6 milhões, no total.
Em 5 de novembro, em outro relato, a secretaria diz que o advogado fez 12 apostas, para um total de R$ 5 milhões, e ainda ganhou R$ 7 milhões, tudo em um intervalo de cinco minutos.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários