Criminosos dão até “cursos” para aplicar golpes na internet
Kits prontos para realização de crimes e tutoriais são vendidos na internet para facilitar a ação de novos bandidos
Na chamada “escola do crime”, cibercriminosos deixaram de atuar apenas na aplicação direta de fraudes e passaram a oferecer – e até a vender – “cursos” para ensinar golpes na internet.
O alerta é do delegado Brenno Andrade, titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), e de especialistas ouvidos pela reportagem de A Tribuna.
Segundo o delegado, os criminosos não apenas executam os delitos, como também capacitam terceiros e fornecem ferramentas prontas para a prática das fraudes.
“Os criminosos também ensinam outras pessoas e, em alguns casos, fornecem as próprias ferramentas. É o chamado crime in service (crime a serviço). Eles oferecem instruções e recursos até para quem não tem tanta habilidade no meio digital, permitindo que essas pessoas também apliquem golpes, mediante pagamento ou repasse de parte dos valores.”
Especialista em Segurança da Informação, Mateus Gomes revela que os “cursos” são vendidos por valores entre R$ 500 a R$ 1.300.
Eduardo Pinheiro, especialista em tecnologia da informação, acrescenta que esses criminosos agem na deep web (internet profunda), no Telegram, no Discord e em comunidades anônimas.
Segundo ele, o estelionato on-line deixou de ser amador e passou a operar como um verdadeiro mercado clandestino, onde fraudes são vendidas como produtos e ensinadas como se fossem aulas.
“Eles usam esses ambientes virtuais para trocar experiências, scripts, métodos e ferramentas para enganar vítimas. Existem duas formas de obter vantagens: cobram pelos ensinamentos ou escalam o crime. Quem ensina exige comissão pelos lucros que serão obtidos com os métodos ensinados”.
Pinheiro enfatiza que as ocorrências só chegaram aos índices atuais graças à rede de troca de informações e à “franquia do crime”.
“Em fóruns clandestinos, quem ‘ensina’ golpes bem-sucedidos ganha reputação, prestígio e influência. A sorte é que, apesar de muita gente ter acesso a esses procedimentos, a minoria ousa desafiar a lei e responder criminalmente”.
Golpistas usam “dicionário 171” para dificultar rastreio
Nos bastidores do crime digital, os golpistas falam uma língua própria, organizada em uma espécie de “dicionário 171” — referência direta ao artigo do Código Penal que trata do crime de estelionato.
Trata-se de um vocabulário paralelo, criado para dificultar rastreios e facilitar a comunicação entre fraudadores em ambientes fechados no mundo virtual.
O especialista em Segurança da Informação, Mateus Gomes, explica que uma empresa de cibersegurança elaborou um relatório identificando termos usados por criminosos para praticar golpes.
A partir desse mapeamento, foi criado o termo “Tramponês”, que traduz a linguagem do cibercrime e ajuda empresas a compreender melhor as táticas utilizadas, como parte de uma estratégia de prevenção e combate à fraude.
“Ser fluente nesse vocabulário permite identificar quando a empresa está sendo mencionada em canais, inclusive na deep web, e agir rapidamente para mitigar riscos”.
Em grupos fechados no Telegram, palavras como “shadow” (sombras) substituem termos mais explícitos, numa tentativa de driblar mecanismos de monitoramento.
Entre as expressões mais comuns estão os chamados “painéis”, verdadeiros shoppings do crime: sites administrados por fraudadores que vendem dados vazados, documentos falsos e ferramentas ilegais.
Outro termo recorrente é “ponte”, usado para designar o intermediário entre o estelionatário e um comprador considerado suspeito ou pouco confiável.
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