A canalhice
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Se Hollywood e os manuais de criminologia preguiçosa nos ensinaram algo, é que o transgressor padrão veste uma roupa surrada, anda pelas sombras e rouba por absoluta penúria. A narrativa é tão cômoda que virou dogma: o crime seria mero subproduto da carência material, uma reação mecânica de estômagos vazios à crueldade do mercado.
Parece reconfortante pensar assim, não? O problema é quando a ciência resolve bater à porta com uma pergunta incômoda: e se a propensão a burlar regras não diminuir quando a conta bancária transborda, mas fizer exatamente o caminho inverso?
Em 2012, o psicólogo Paul Piff e seus colegas da Universidade da Califórnia em Berkeley resolveram tirar a prova empírica desse folclore social. Investigaram desde o comportamento no trânsito — onde os donos de carrões de luxo cortavam alegremente a preferência de pedestres e furavam cruzamentos em proporção vergonhosa — até trapaças abertas em jogos de dados. Mas o ápice da pesquisa foi um teste de pura poesia sociológica.
Os voluntários foram colocados em uma sala, na qual havia um pote de doces claramente destinados a crianças. Pois bem. A expressão popular "roubar doce de criança" sempre existiu para designar tarefas de extrema facilidade ou de vilania de desenho animado. O que ninguém esperava é que ela se tornasse algo levado a cabo com total frieza. Adivinhe quem surrupiou o maior punhado de confeitos das criancinhas? Exatamente os participantes posicionados no topo da escala socioeconômica - carregaram o dobro dos demais!
O sujeito com vida nababesca, formação de ponta e saldo invejável não resistiu a desfalcar a cota de açúcar de menores anônimos. E não o fez por fome, hipoglicemia ou desespero, mas pela certeza internalizada de que seus desejos possuem primazia natural sobre o resto do mundo. A pesquisa revelou que a abundância de recursos frequentemente alimenta a justificativa moral da ganância e um corrosivo senso de privilégio: a regra foi feita para conter o vizinho, não para tolher os meus caprichos.
Isso nos força a encarar o óbvio: o crime e a quebra ética compõem um fenômeno infinitamente mais complexo do que sugere a miopia classista. Reduzir a transgressão a uma equação simplista de pobreza é uma manobra dupla de desonestidade intelectual. Primeiro, estigmatiza quem pouco tem, como se a privação anulasse automaticamente a decência. Segundo, concede uma cândida presunção de santidade aos andares superiores, onde fraudes contábeis, crimes ambientais e negociatas de bastidor movimentam bilhões sem precisar quebrar uma vidraça.
Se pretendemos construir uma sociedade minimamente lúcida e segura, precisamos estudar o fenômeno criminal de peito aberto. Sem o conforto da hipocrisia, sem as lentes do puritanismo de ocasião e sem as amarras de velhos preconceitos ideológicos. O desvio moral é uma engrenagem psicológica e institucional muito mais sofisticada — e que, a depender das circunstâncias, é capaz de estender a mão engravatada até para a lancheira dos pequenos.
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