Ator Eduardo Pelizzari: “Hoje o público quer personagens reais”
O ator Eduardo Pelizzari fala ao AT2 sobre seu trabalho em “Dona Beja” e como buscou retratar afetos, desejos e conflitos
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Quem curtiu “Malhação” no início dos anos 2000 deve se lembrar do vilão Fred, sucesso absoluto da temporada de 2006, interpretado por Eduardo Pelizzari.
De lá para cá, muita coisa mudou com o ator, que agora, aos 40 anos, traz uma rica bagagem adquirida ao logo de duas décadas.
Atualmente no elenco da releitura de “Dona Beja”, no ar às quintas e sextas na TV Tribuna/Band, ele encara um novo desafio: interpretar o delegado Maurício Belgard, que é gay e fica responsável por investigar a protagonista da trama.
Ele conta, em entrevista ao AT2, que o personagem foi um presente. “Foi um grande presente que recebi em minha carreira, um convite que surgiu a partir do autor Daniel Berlinsky e que eu não diria que foi difícil achar o tom, mas exigiu de mim uma veracidade cênica. Hoje o público quer personagens reais, nada supera o sentimento, a verdade, a emoção”, explicou.
E, para dar vida ao delegado Belgard, ele conta que colocou seu corpo a serviço da narrativa e da verdade do personagem.
“Eu, um homem hétero interpretando um personagem gay, mas, acima de tudo, dando vida a um personagem, um ser humano com desejos, conflitos, afetos e contradições. Foi uma entrega linda de se vivenciar. Vejo hoje, pelo retorno do público, que está sendo positiva. Venho recebendo muito carinho, isso é gratificante: saber que acertei o tom”.
Eduardo Pelizzari conta que tem muito em comum com o delegado Maurício, especialmente a humanidade do personagem. “Eu acho que tenho muito do entendimento dos ambientes onde estou chegando, das pessoas que me relaciono, da humanidade”.
Em seus 20 anos de carreira, ele diz que não se arrepende de nenhum trabalho. “Talvez arrependimento da forma como foram conduzidas algumas escolhas. Quando fiz ‘Malhação’, eu era muito jovem, ainda existia muita imaturidade nas minhas escolhas e eu acho que esse é o natural da vida, ir se desenvolvendo”.
Além de “Dona Beja”, Pelizzari se prepara para estrear seu primeiro monólogo, uma adaptação de “Hamlet”, prevista para abril.
No espetáculo, ele interpreta nove personagens, sob direção de Ciro Barcelos. “É um grande desafio interpretar um ‘Hamlet’. É um desafio mergulhar em Shakespeare, entrar sozinho em cena num espetáculo tão rico”, explica.
Quando questionado sobre seus planos para o futuro, Pelizzari foi enfático: “Meu plano é não estar no futuro, é estar no presente. Meu presente agora é meu filho, minha casa, meu monólogo, o retorno que ‘Dona Beja’ está me dando, meus amigos, minha família. Meu plano para o futuro é o meu presente!”.
Eduardo Pelizzari ator
“Meu sonho é mais tupiniquim”
AT2 — Como foi seu processo de composição do personagem em “Dona Beja”? Pegou referências na antiga novela?
Eduardo Pelizzari — A composição vem a partir de um combustível motor que move o personagem. O que move ele é o objetivo de investigar, de entender, solucionar o mistério das prostitutas. Construí um homem com uma sexualidade muito bem resolvida, com experiências já vividas e que também está sempre analisando. Eu não peguei a referência da versão dos anos 80, pois estamos falando de outro tempo, o personagem tinha outro propósito naquela trama.
Como foi trabalhar com a Grazi Massafera?
A Grazi é um fenômeno! Talvez seja a artista que eu mais tenha visto dar um salto quântico de evolução de profundidade na construção do personagem! A primeira cena que fiz com ela em “Dona Beja” foi muito impactante, porque nós trabalhamos juntos 15 anos atrás, em “Negócio da China”, e eu tinha guardado a imagem daquela moça jovem, muito sensível, recém-saída de um reality. Agora, encontrei uma mulher com camadas profundas de uma construção artística.
Você ficou conhecido por seu vilão Fred, em “Malhação”. Tem saudade daquela época?
Claro! “Malhação” foi minha porta de entrada para o início de meu sonho, de poder acreditar que seria possível viver da arte, trabalhar com arte.
Quando fui fazer o teste, saí de São Paulo pela primeira vez de ônibus, cheguei no Rio de Janeiro, eram mais de 100 atores do Brasil todo. E, como sonhei em estar lá, como sonhei em ser aprovado! Foi um sonho realizado, hoje vivo disso, é concreto, é palpável!
Foi - ou é - difícil lidar com a fama?
Não foi difícil lidar com a fama, pois eu nunca me apeguei a ela. Nunca foi algo que sustentou o desejo de permanecer na arte. Da mesma forma que eu tive uma fama absoluta na época de “Malhação”, eu já tive momentos em que as pessoas me perguntavam se eu tinha parado de atuar, e eu estava em cena no teatro, fazendo filmes, ensaiando projetos e me reciclando em faculdade de Artes Cênicas. Da mesma forma que a fama não me envaideceu, o momento longe dos holofotes também não me entristecia, porque a minha carreira não é construída na base da fama, mas sim de uma apropriação de um artista que está se transformando, se moldando para chegar a uma essência interna.
Pensa em carreira internacional, agora que o cinema brasileiro está bem cotado em Hollywood?
Não, tem muitas boas histórias para serem contadas aqui no Brasil. Meu sonho é mais tupiniquim, mais tupã, eu quero transitar pelos cenários culturais brasileiros.
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