Antes que mude
“Cultura” resolve rápido. É confortável o suficiente para que se suponha que explica a origem de um comportamento
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Recebi um amigo no aeroporto e fomos almoçar. Cartas à mesa, interesses em comum e uma conversa densa sobre estruturas organizacionais de empresas que conhecemos bem. Entre todos os pontos, um em comum.
“Cultura” resolve rápido. Nomeia, organiza a fala e encerra o assunto sem exigir explicação. Descreve o ambiente, não o mecanismo. É confortável o suficiente para que se suponha que explica a origem de um comportamento.
É uma palavra que não carrega desordem. Sugere processo, acompanhamento, alguma dose de disciplina. Sugere que decisões não surgem no impulso, mas passam por etapas, validações, por gente suficiente para supor que o resultado seja o melhor possível.
A cultura opera como uma estrutura que delimita o que pode e o que não pode acontecer. Assim, ela também define o que é permitido e o que não é. Quem avança e quem fica. Expõe que organizações não decidem apenas entre alternativas. Decidem entre alternativas que sobrevivem ao ambiente. Esse filtro não elimina o inviável; elimina o contraditório. Não é uma regra formal, mas, ainda assim, organiza.
Por dentro das organizações, a cultura raramente se importa com o melhor resultado quando ele é incapaz de sustentar o status quo. Os limites são definidos pelo contexto: o que pode ser defendido, o que pode ser explicado e o que não gera exposição. O melhor resultado é o que não cria problema, pois o ambiente responde de forma suficiente para que o padrão seja entendido.
A conversa seguiu nesse registro por algum tempo. Exemplos apareciam com facilidade. Situações diferentes, o mesmo tipo de limite.
Esse tipo de limite não costuma ser percebido como limite. Ele se apresenta como coerência, alinhamento, maturidade decisória. Ganha legitimidade justamente por não se apresentar como restrição. Os caminhos tornam-se previsíveis, e o resultado passa a caber dentro do que já era esperado.
Nada trava. Nada colapsa. Nada chama atenção. A aderência toma o espaço do impedimento, e nada fica fora do padrão.
Com o tempo, esse ajuste deixa de ser percebido como escolha. Ele passa a operar como padrão. O que poderia ampliar o resultado perde espaço antes de se consolidar. Não por erro de análise, mas por aderência ao que o ambiente absorve sem esforço adicional.
A decisão continua existindo, mas dentro de um intervalo mais estreito do que aparenta. As alternativas que exigiriam outro tipo de percurso deixam de competir em condições equivalentes. Não chegam a desaparecer. Apenas deixam de atravessar o filtro.
Curiosamente, quando tudo parece funcionar dentro desse arranjo, não há urgência em alterar o curso. As decisões seguem coerentes, os caminhos fazem sentido, e a própria consistência passa a ser tomada como evidência de acerto.
Nesse ponto, a leitura costuma parar. Não por falta de alternativas, mas porque elas já não são necessárias para sustentar o que está posto. Pois, na cultura da organização, há também a nossa cultura: nossa tolerância ao desconforto, nossa disposição para tensionar o óbvio e nossa preferência silenciosa por decisões que não nos obriguem a reorganizar o mundo.
Em algum ponto, já sem muito o que acrescentar, o assunto perdeu força. Ficou ali, como costuma ficar quando já se disse o suficiente.
Levantamo-nos e seguimos.
Talvez seja isso que mais se confunde com decisão: não o que escolhemos, mas o que já não estamos dispostos a sustentar.
Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.