Ilustrador capixaba já trabalhou para Disney e DC Comics
Capixabas transformam a paixão pela cultura geek em profissão e conquistam espaço no mercado nacional e internacional
Uma vez por mês, o dentista Jean Diaz fazia uma maratona: ele pegava um ônibus da Bahia até Vitória. Daqui, embarcava em um avião para São Paulo. Tudo isso para participar de um curso de histórias em quadrinhos (HQ's). Sua carreira de ilustrador começou assim. Hoje faz projetos para a Europa e os Estados Unidos. No currículo, Disney e DC Comics.
“Eu sempre desenhei, mas não tinha um conhecimento profissional da área. Aí eu pensei: 'Vou me dar essa chance'. Desenhar HQ's era um sonho”.
Na época, início de 2000, recém-formado, o capixaba conta que estava vivendo com a irmã na Bahia. Ele começou o curso sem acreditar que seria possível viver de arte.
“Fazia aula na sexta, sábado e segunda. Depois voltava para trabalhar. Eu acreditava que ia crescer como dentista, via como um caminho já construído. Mas eu não queria passar a vida sem me dar essa chance do desenho”.
Durante o curso, Jean conta que um agente americano destruiu seu desenho. “Deu uma paulada feia nele. Em vez de pensar que não ia dar certo, pensei 'vou esfregar na cara dele que consigo'. No avião eu já estava desenhando com as dicas que ele deu”.
Oito meses após começar o curso, veio o primeiro trabalho como ilustrador. Era a quadrinização de uma série americana chamada The Shield. A HQ foi publicada nos Estados Unidos em 2004.
“Larguei a Odontologia e paguei minhas contas. O salário era compatível com o que eu ganhava como dentista e coincidiu com meu pai tendo um derrame. Precisei voltar para Vitória e cuidar dele.”
Jean recorda não se sentir preparado. “O negócio era maior do que eu. Mas mesmo assim encarei. Foram cinco edições, seis meses”.
Não lembra quanto ganhou exatamente, mas, fazendo as contas, dá para chegar a US$ 22 mil dólares (R$ 81.400).
O caminho não foi fácil. Entre um trabalho e outro, passava perrengue. Até o registro de dentista continuou pagando por um tempo. “Foi dando certo aos trancos e barrancos”.
O momento “Cheguei lá” aconteceu por volta de 2007, quando ilustrou Mulher Maravilha.
Já com a Disney, Jean trabalha há três anos. Aos 49, apaixonado pelo que faz, vive da ilustração. Atualmente desenha uma HQ de uma revista francesa e está trabalhando em um projeto do universo Star Wars para a Disney. “É claro que é possível ser capixaba e viver disso. Eu consegui”.
“Não vou falar meu salário”
A Tribuna — No que você já trabalhou?
Jean Diaz — Já fiz ilustrações para as revistas Super Interessante, Mundo Estranho, Saúde. Já nos quadrinhos, fiz Mulher Maravilha, Highlander. Em termos técnicos, um dos que mais me orgulho foi Prométhée, uma série de ficção científica da França, que fiz de 2017 até 2023.
Também trabalhei na série “Ministério Público do Trabalho (MPT) em quadrinhos”, que era um projeto enorme. Já fiz ilustração de jogos de carta para a Disney, além de para outros produtos, como livros que saem junto com lançamentos de filmes.
Quanto você costuma ganhar por mês?
Varia muito. Não vou falar meu salário porque fico com vergonha. Mas, em média, a Disney paga US$ 450 (aproximadamente R$ 2,5 mil) por um desenho completo. Já um personagem custa entre US$ 150 e US$ 200 (cerca de R$ 830 a R$ 1.100).
Já as páginas de HQ da Europa, a remuneração gira em torno de € 300 por página (cerca de R$ 1.900). O ideal, segundo ele, é produzir cerca de 15 páginas por mês.
Produção de Amigurumis
Taiani de Almeida, 30, vende Amigurumi que é uma técnica artesanal japonesa que transforma fios de crocrê em bonecos. Ela faz vários personagens do mundo geek, como Pokémon, e os vende em eventos ou por demanda através de sua loja online Cherri Ateliê. Os preços variam podendo ultrapassar R$ 200. Ela conta que já recebeu encomendas de todas as regiões do Brasil e, em média, ganha entre R$ 1.000 e 1.500 por mês.
Cosplay em eventos
Bianca Gomes tem 30 anos e desde 2011 faz cosplay. Ela já chegou até a ganhar concursos. Há cinco anos transformou toda essa experiência em um negócio: a Seraph.
“A gente atua tanto fazendo eventos nossos quanto fornecendo equipes para outros eventos, como staff, equipe de júri e coordenação”, conta.
A equipe do júri, explica, veio de uma percepção. “Os eventos montavam equipes de júri com pessoas aleatórias que, muitas vezes, não faziam cosplay ou entendiam sobre o tema”, explica Bianca.
Amigos criam editora de RPG
Arthur Pinto, 39, e Ramon Moure, 49, são amigos, vizinhos e fundadores da Editora Caleidoscópio, uma editora de Role-Playing Game (RPG) voltada para autores e jogos nacionais.
RPG, em termos simples, são jogos de interpretações de papéis. O Arthur e o Ramon se conheceram através deles. Há cerca de 7 anos, reunidos com os amigos, fizeram uma história de RPG que “todo mundo gostou. Era o início de uma história”, segundo Arthur.
Eles a publicaram online. “A partir dali tivemos a ideia de começar a escrever nosso primeiro RPG”.
O primeiro, “As chaves da Torre”, entre várias reescritas e testes com os amigos, levou dois anos e meio para ser publicado. Acabou ganhando prêmios nas mais importantes competições do mercado RPG, como o Goblin de Ouro na categoria melhor cenário em 2023.
Os sócios contam que para publicar o livro fizeram um financiamento coletivo que arrecadou cerca de R$ 45 mil, o que permitiu que criassem também a editora. Hoje, além de publicarem novos livros próprios de RPG, tem seis autores “no forno”.
Embora o objetivo seja viver dela, por enquanto, é mais um hobby meio profissional, contam. “O nosso hobby virou negócio. Mas, por enquanto, é um negócio que ainda é hobby. A editora se sustenta”, diz Ramon.
Lições de quem vive da cultura geek
1. Seja fiel ao que você ama
Pense mais no conteúdo e nas pessoas que quer atingir do que no sucesso do mercado. Se ficar preso a esse último, pode se perder.
2. Construa um portfólio
Produza conteúdos ou trabalhos inspirados nos universos de que gosta. Um bom portfólio abre portas e demonstra seu potencial.
3. Planeje o negócio
Paixão é importante, mas é preciso fazer um plano de negócios, conhecer o mercado e prever o investimento necessário.
4. Supere as expectativas
Entregue mais do que o cliente espera. Qualidade, criatividade e atenção aos detalhes ajudam a conquistar espaço.
5. Nunca pare de aprender
Acompanhe as tendências, aperfeiçoe suas habilidades e invista em bons relacionamentos para conquistar novos clientes e oportunidades.
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