Histórias Empresariais: Vila Velha ganha 28 mil empresas em cinco anos
À frente da Assevila, Éder Lemke disse que status de “cidade dormitório” ficou para trás e destacou a meta de digitalizar a entidade
Uma trajetória de crescimento do empreendedorismo que começou em plena pandemia de covid. Outrora apelidada de “cidade dormitório”, Vila Velha registrou a abertura de cerca de 28 mil empresas desde 2021 e já soma 90 mil negócios ativos.
O dado foi apresentado pelo presidente da Associação dos Empresários de Vila Velha (Assevila), Éder Lemke, durante entrevista ao podcast Histórias Empresariais.
Apesar do crescimento do número de empresas, Lemke afirma que a principal preocupação do empresariado atualmente é a escassez de mão de obra qualificada, problema que, segundo ele, supera até os impactos dos juros elevados.
À frente da Assevila desde maio, o dirigente colocou como meta modernizar a entidade e transformá-la em uma associação totalmente digital, ampliando a transparência, a comunicação e o acesso dos associados aos serviços oferecidos.
A Tribuna — Qual é o papel de uma entidade empresarial como a Assevila?
Éder Lemke — Quando a gente reúne empresários, consegue identificar dores comuns e levar essas pautas para discussão com o poder público. O associativismo trabalha justamente essa visão coletiva. A concorrência existe naturalmente nos negócios, mas, quando falamos do futuro da cidade, há desafios que são comuns a todos.
Qual marca o senhor pretende deixar na Assevila?
Quero deixar a entidade 100% digital. Acredito que isso melhora a transparência, facilita a comunicação com os associados e aproxima a instituição dos empresários.
Como o senhor vê o impacto do e-commerce sobre polos tradicionais de comércio da cidade, como o Polo da Glória?
Esse é um desafio grande, principalmente após a pandemia, que fortaleceu o e-commerce.
Quando a gente fala do Polo da Glória, lembra daquele local onde havia uma circulação muito grande de consumidores. Isso já não acontece da mesma forma. Com a chegada das plataformas de comércio eletrônico, o processo ficou mais digital do que presencial.
Mas essas empresas também estão entrando nesse ambiente e utilizando essas plataformas para vender e alcançar novos mercados.
Existe uma preocupação de que os jovens estejam saindo menos de casa para consumir?
Eu vi recentemente uma pesquisa nos Estados Unidos mostrando justamente essa preocupação. Como os jovens não saem mais tanto para fazer compras, muitas lojas que dependiam da circulação de pessoas passaram a ter dificuldade para sobreviver. Se não há movimentação em frente à loja, ela vende menos. Por isso a necessidade de estar presente no físico e no digital.
A discussão sobre o fim da escala 6x1 é controversa e traz muitas visões, tanto de que pode prejudicar quanto melhorar a oferta de mão de obra. O empresariado, no geral, vê uma certa falta de diálogo sobre a mudança. Qual sua visão?
Ainda é cedo para fazer análise. É um tema sensível porque pode aumentar custos em setores que precisam manter a operação funcionando. Uma farmácia ou uma loja de material de construção, por exemplo, dificilmente vão fechar.
Pode haver aumento da oferta de mão de obra, já que algumas pessoas podem buscar uma segunda ou terceira fonte de renda. Mas é muito difícil medir esse impacto. É um assunto que merece mais debate e aprofundamento
Nem todo mundo vai querer aproveitar a folga e descansar?
Acredito que muitos vão buscar uma fonte complementar de renda. Com mais de 80% das famílias endividadas, a tendência é que parte dessas pessoas procure outra atividade em vez de ficar sem trabalhar nesse período.
Reter funcionários passa pela questão da flexibilidade?
Eu acho que sim. Mas acredito que hoje as pessoas também olham para a proposta da empresa. Qual é a proposta? O quanto ela se preocupa com a qualidade de vida dos funcionários, com saúde, com o local onde atua e com o meio ambiente? É um conjunto de fatores. Principalmente o jovem quer entender qual é a proposta da empresa.
Quer vestir a camisa. Não basta mais ter bom salário?
Exatamente. Quero vestir a camisa de uma empresa que faz o bem para o meio ambiente, que se preocupa em me desenvolver profissionalmente e em desenvolver a comunidade onde atua. Acho que é um conjunto de fatores.
Jeff Bezos disse que a inteligência artificial não vai acabar com empregos e pode até aumentar a demanda por profissionais. O senhor concorda?
A gente vê toda semana uma notícia diferente sobre inteligência artificial. Acredito que ela potencializa muito o ser humano. Ela consegue acelerar processos e contribuir muito, desde que você saiba exatamente o que quer.
Acredito que existe um campo muito grande pela frente, principalmente na educação e na saúde, com avanços que podem ajudar a resolver questões que hoje ainda não conseguimos resolver.
Existe alguma preocupação em relação ao futuro da IA?
Existe uma grande incógnita. Hoje a inteligência artificial está disponível para todos, mas a dúvida é se isso continuará no futuro. Se continuar acessível, abre uma possibilidade enorme para pequenos empreendedores escalarem seus negócios.
Nem toda empresa precisa de inteligência artificial?
Antes de usar inteligência artificial, conheça o seu problema. Muitas vezes a gente começa a investir em uma solução porque ela virou assunto. Mas será que aquele negócio realmente precisa de inteligência artificial? Talvez precise só rever um processo, mudar uma rotina ou até eliminar uma etapa.
Perfil
Éder Lemke
- Presidente da Associação dos Empresários de Vila Velha (Assevila).
- Diretor-executivo do Sicoob Coopermais.
- Formado em Administração e Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
- Iniciou a carreira como estagiário no Sicoob até chegar à direção.
- Trabalhou por cerca de 10 anos em Santa Maria de Jetibá, antes de seguir para a Grande Vitória.
- Natural de Santa Maria de Jetibá, cresceu em uma família de origem pomerana.
- Entusiasta de tecnologia e programação. Considera o cooperativismo um instrumento de desenvolvimento de pessoas, famílias, cidades e regiões.
- Casado com Marina há 14 anos. Pai de Carol, de 16 anos, e de Eduardo, de 5 anos.
- Aponta a visita ao Vale do Silício como a viagem mais marcante da vida.
Curiosidades
Ida ao Vale do Silício
Apaixonado por tecnologia, Éder Lemke realizou uma viagem ao Vale do Silício para conhecer de perto gigantes como Google, Meta e Netflix. O passeio ganhou um capítulo inesperado durante uma conexão no Panamá: ele encontrou Steve Wozniak, cofundador da Apple.
Houve conversa, fotos e, dias depois, a visita a um museu que exibia o Apple I e o Apple II assinados pelo próprio Wozniak.
Café Empresarial
A reforma tributária e os desafios da contratação e retenção de profissionais estarão entre os temas das próximas edições do Café Empresarial, promovido pela Assevila.
Realizado a cada dois meses, o evento reúne empresários e especialistas para debater assuntos considerados estratégicos para o desenvolvimento econômico de Vila Velha e para o ambiente de negócios do município.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários