Empresa no ES registra mais de 15 mil dias de atestados em seis meses
Outras organizações também investigam documentos suspeitos e relatam até demissões por justa causa. Problema eleva custos afeta planos de expansão
Os atestados médicos que, segundo empresários, são falsos ou “mentirosos” viraram um problema tão frequente para empresas do setor supermercadista e da construção civil que até investigações próprias são realizadas por empresários para tentar coibir a prática.
Os principais motivos vão desde adoecimento real, até a saúde mental, sobrecarga, condições inadequadas de trabalho, dificuldade de acesso ao atendimento preventivo e também, em alguns casos, uso indevido ou fraude, afirma a especialista em Recursos Humanos Gisélia Freitas.
No segmento de supermercados, o Grupo Carone, que possui diversas lojas na Grande Vitória, chegou a receber 15.705 dias de atestado entre janeiro de junho deste ano.
Considerando o número de funcionários — 5.500 —, daria cerca de três dias de atestado para cada um.
Para frear esse avanço, a empresa elaborou uma lista dos postos de saúde que mais emitiram os atestados nesse período para os funcionários. A ideia é entender as circunstâncias em que eles foram emitidos.
“Isso não é porque estamos largados e aceitando de qualquer maneira. Nós estamos trabalhando, indo atrás de secretário municipais de saúde e temos o ranking dos postos de saúde”, afirma Wilian Carone, CEO do grupo.
O mesmo questionamento é feito por outro empresário do setor, que possui lojas em Vitória e Vila Velha. Segundo ele, há uma facilidade para que os funcionários consigam o documento.
“Eles vendem atestados, dão para qualquer pessoa. Tem um posto de saúde que dá atestado para todo mundo. Mas a gente não tem tanto tempo para ficar indo atrás”, desabafa José Henrique Neffa, do Supermercado São José.
Esse problema colaborou, inclusive, na decisão de paralisar um projeto de expansão da marca na região metropolitana. Em 2026, por exemplo, a empresa registrou três casos de atestados falsos — que renderam demissões por justa causa.
Na construção civil, o problema também tem representado uma “dor de cabeça” para as empresas. Somada à escassez de mão de obra, a situação tem representado gasto extra com a necessidade de contratar mais trabalhadores.
Segundo o diretor de Economia e Estatística do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon-ES), Eduardo Borges, a verificação virtual dos atestados é uma questão urgente.
“É muito triste que, em um momento de escassez de mão de obra muito intensa no Brasil, a gente ainda tenha que conviver com esse tipo de situação. Tudo isso já deveria ser completamente verificável on-line, a autenticidade desses atestados”, comenta.
Maioria das faltas é por doença real
A maioria dos atestados médicos são por motivos de doença reais, afirma o vice-presidente da Federação do Comércio do Estado (Fecomércio-ES), José Carlos Bergamin.
Na proporção, 80% dos documentos entregues aos departamentos de Recursos Humanos dos setores onde há mais problema com fraudes — como supermercadista e construção civil — são idôneos, ou seja, quando estão realmente com uma enfermidade.
“A maioria das pessoas são boas. Não tem tantos problemas de pessoas fazendo atestados falsos. Isso porque existe um grande risco”, diz Bergamin.
No setor supermercadista, por exemplo, empresários reconhecem que os atestados verdadeiros precisam ser respeitados. Segundo o presidente da Associação Capixaba dos Supermercados (Acaps), João Falqueto, a grande maioria dos funcionários que têm atestado de três a cinco dias é encaminhada ao médico do trabalho para a consulta ser refeita.
“Às vezes, quando a pessoa está doente, o médico prontamente mantém os dias ou até dilata, se for o caso”.
Viagens de até 40km relatadas
Mapeamentos internos do setor identificaram casos de trabalhadores que percorrem 30 quilômetros a 40 quilômetros fora de sua rota habitual para obter atestados em outros municípios. É o que aponta o presidente da Associação Capixaba dos Supermercados, João Falqueto.
Em uma das inconsistências detectadas, o documento apresentava o registro de um profissional do Sul do Estado que jamais atuou na Grande Vitória.
“Esse tipo de coisa a gente está mapeando, levantando e indo com o que a lei nos permite, que é a demissão por justa causa e agora entrando também com os processos nas delegacias”, afirma.
Um empresário da construção civil relatou que neste ano a Justiça do Trabalho no Espírito Santo confirmou a demissão por justa causa de um trabalhador da empresa dele que apresentou documento médico falsificado.
O empregado derrotado no processo foi condenado a arcar com cerca de R$ 5 mil, juntando valor da causa e honorário de sucumbência.
Diferente de outros segmentos, o setor da construção civil não possui políticas preventivas padronizadas, limitando-se ao desligamento imediato por justa causa.
A viabilidade jurídica do adicional de assiduidade é uma possibilidade levantada pelo próprio empresário como uma eventual solução, mas que pode esbarrar em regras da Convenção Coletiva de Trabalho vigente, por exemplo.
Saiba mais
Impactos no setor supermercadista
Fraudes e faltas decorrentes de atestados médicos falsos representam um problema recorrente que afeta diretamente o setor supermercadista capixaba e outros segmentos da economia.
A prática irregular provoca o aumento do custo operacional das empresas e prejudica a qualidade do atendimento prestado aos clientes.
Para compensar as ausências e manter o fluxo de trabalho, os supermercados precisam ampliar o quadro de contratações, enfrentando a atual escassez de profissionais no mercado.
Ações de fiscalização
As empresas do setor passaram a adotar uma segunda avaliação médica para validar atestados que apresentem inconsistências ou prazos superiores a um dia.
A legislação concede hierarquia ao médico do trabalho da empresa para reavaliar o quadro de saúde e acatar ou alterar o período de afastamento indicado por unidades públicas.
A apuração das equipes de Recursos Humanos (RH) envolve checar se o documento foi emitido por profissional cadastrado no posto de saúde ou se houve falsificação de carimbo e assinatura.
Embora mantida a confidencialidade sobre os diagnósticos, as unidades de saúde são obrigadas a confirmar formalmente a presença, data e horário do atendimento prestado.
Articulação institucional
A Associação Capixaba de Supermercados (Acaps) iniciou tratativas com Secretarias Municipais de Saúde e o Conselho Regional de Medicina (CRM-ES) para coibir irregularidades.
As reuniões institucionais foram iniciadas entre agosto e setembro, com retomada dos diálogos prevista para o período entre o final de setembro e início de outubro.
Os estabelecimentos foram orientados a demitir infratores por justa causa e registrar boletins de ocorrência junto à Polícia Civil ao constatar fraudes.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários