A Europa quer saber onde o café nasceu
EUDR exige comprovação de que o café não vem de área desmatada após 2020; regra entra em vigor em dezembro e preocupa produtores do Espírito Santo.
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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Uma saca de café sai de uma fazenda capixaba e, semanas depois, é aberta num porto europeu. Até hoje, as perguntas que acompanham essa saca são sobre peneira, bebida e preço.
A partir de 30 de dezembro, entra outra: em que ponto do mapa estava plantado o pé que deu esse grão? A pergunta vem da regra europeia contra o desmatamento, a EUDR. Ela obriga quem vende café e outras commodities no mercado da União Europeia a comprovar que o produto não vem de área desmatada depois de dezembro de 2020.
A entrada é gradual: dezembro de 2026 para os grandes e médios operadores, até meados de 2027 para os pequenos. A norma já foi adiada duas vezes, e parte do setor passou a tratar o calendário como elástico. Nós achamos arriscado apostar num terceiro adiamento.
Os números explicam a atenção. Em 2024, 51,2% do café brasileiro teve a Europa como destino, e o café é a única das commodities alcançadas pela norma com mais da metade da produção indo para lá.
Em maio, a Comissão Europeia ainda propôs incluir o café solúvel, justo quando ele cresce por aqui: de janeiro a agosto, as exportações subiram 12,8%, para cerca de 2,83 milhões de sacas.
Para o Espírito Santo, o assunto é de casa. Só Bélgica, Espanha e Alemanha ficaram com cerca de 25% do café embarcado pelo estado no primeiro semestre, quase tudo conilon. Quando o comprador europeu muda a exigência, a mudança chega ao produtor capixaba em poucas semanas.
Convém separar quem responde perante a lei de quem sente no bolso. Responde o importador europeu. Sente o fornecedor, porque o comprador de lá vai cobrar de volta o que a lei cobra dele: origem e coordenadas da área onde o café foi colhido.
O grande exportador tem uma equipe e sistemas para organizar isso. O produtor familiar, que vende para um comprador local que vende para um exportador, tem a corrente mais longa e o menor caixa para documentá-la.
Um levantamento divulgado em junho já alertava que cooperativas rurais e produtores familiares terão mais dificuldade para vender ao bloco. Mas isso não precisa ser um “bicho de sete cabeças”. Quem tiver a propriedade mapeada, a documentação em dia e o histórico limpo vende com mais facilidade, talvez com prêmio, enquanto o concorrente sem papel perde o comprador.
Brasil e Vietnã estão entre os principais fornecedores de café da Europa, e o café vietnamita também vai precisar se explicar. Quem chegar primeiro com a papelada pronta ocupa o lugar de quem demorar. O produtor que mapeou a lavoura em outubro negocia diferente de quem corre atrás do documento em dezembro.
Faltam menos de três meses. Mapear a área e guardar notas e registros está ao alcance de cada produtor, seja qual for a decisão do bloco europeu, e papel organizado costuma servir a mais de um comprador. Preferimos chegar a dezembro com tudo em ordem e ver o prazo esticar a descobrir o contrário com a carga parada no porto.
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Coluna assinada por Marcus e Matheus Magalhães