Rede de Leitura Inclusiva
Projeto coordenado pela Fundação Dorina Nowill desde 2013 articula políticas e práticas para garantir acesso autônomo ao livro em múltiplos formatos
Leitores do Jornal A Tribuna
Siga o Tribuna Online no Google
A palavra rede carrega um campo semântico vasto, atravessado por dimensões simbólicas, concretas e sociais. Na condição de filha do mangue e neta de costureira, não me é possível escapar ao uso poético que revela, intrinsecamente, a implicação política do termo. A rede não é apenas uma estrutura; é um compromisso de sustentação.
Inevitavelmente, a palavra evoca imagens: a rede de pesca, que garante o alimento e a sobrevivência; a rede de descanso, que oferece o acolhimento e o embalo. Cada uma delas ajuda a compreender a potência da rede como uma trama de relações — feita para conectar o que está disperso, apoiar o que pesa e colocar em movimento o que estagna.
É sob essa lógica de entrelaçamento que pulsa a Rede de Leitura Inclusiva. Idealizado e coordenado desde 2013 pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, o projeto não apenas fortalece movimentos de acesso ao livro, mas exige que a leitura seja, de direito e de fato, um território de todos. Trata-se de garantir acessibilidade em múltiplos suportes para que o ato de ler deixe de ser um exercício de exclusão.
A proposta reconhece a leitura como um direito humano fundamental. Defende o acesso autônomo aos conteúdos, respeitando as diversas formas de percepção e interação, tanto no processo de fruição quanto na produção de obras literárias.
Quando a leitura inclui quem lê — através da representatividade e da produção de sentidos — ela deixa de ser consumo de informação para se tornar exercício de cidadania.
Essa trama abrange o conjunto de políticas e práticas que asseguram formatos acessíveis — como audiodescrição, Braille, Libras, livros digitais e outros. Nela, entrelaçam-se personagens vitais: leitores, famílias, escritores, bibliotecários e gestores. Todos, fios de um mesmo tecido social.
Ao longo dos últimos dez anos, a Rede de Leitura Inclusiva realizou dois encontros nacionais, promoveu duas edições da Pesquisa de Leitura Acessível e Inclusiva e produziu duas coleções literárias sobre a cultura brasileira, com a contribuição de parceiros das cinco regiões do País.
Recentemente, em março de 2026, o 3º Encontro Nacional de Leitura Inclusiva, em São Paulo, materializou essa capilaridade ao reunir 252 colaboradores de todas as regiões do País. A capital capixaba esteve lá, levando a voz do Estado do Espírito Santo para compor esse mosaico nacional de vozes e territórios.
Quando o livro se torna acessível, ele perde o caráter de privilégio e assume sua natureza de encontro. Cada página aberta cria uma ponte; cada formato acessível expande o horizonte. Ler, sob essa ótica, é tecer relações entre histórias e geografias.
A Rede de Leitura Inclusiva nasce desse gesto coletivo de entrelaçar fios — fios que conectam livros e pessoas para que o conhecimento circule, alcance e transforme. Nessa trama da leitura, o direito se torna encontro. Assim, a rede enreda.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Tribuna Livre,por Leitores do Jornal A Tribuna