A eleição em que você não saberá mais o que é verdade
Tecnologia leva campanhas a disputarem não só versões, mas os próprios fatos, e exige do eleitor uma desconfiança ativa diante de imagens e vídeos
Leitores do Jornal A Tribuna
Siga o Tribuna Online no Google
A política nunca teve uma relação propriamente monogâmica com a verdade. Mas sempre reservou espaço para a sedução, o retoque, o ângulo conveniente e essa vaidade tão humana de preferir o retrato ao espelho.
Os reis já sabiam disso quando encomendavam pinturas com alguns pecados a menos e certas virtudes a mais.
A eleição de 2026 inaugura uma fronteira diferente. A inteligência artificial permite não apenas escolher como contar um acontecimento, mas produzir imagens, vozes e cenas que jamais existiram. É uma revolução tecnológica. Mas é, também, uma revolução na disputa pela percepção.
Campanhas eleitorais são grandes batalhas de percepção. O eleitor conhece fragmentos — uma entrevista, uma fotografia, quinze segundos de vídeo, uma frase. Com esses pedaços constrói o todo. Durante séculos, a propaganda disputou a interpretação dos fatos. Agora, pode disputar os próprios fatos.
Imaginar que inteligência artificial em campanha se resume às deepfakes seria confundir o foguete com a fumaça que ele deixa no céu. Nos bastidores, a I.A. cruza dados, organiza pesquisas, identifica vulnerabilidades, produz conteúdo em escala e reduz brutalmente o intervalo entre um fato e a reação. Nas mãos certas, agrega eficiência; em mãos erradas, um poder bélico que deixaria a bomba de plutônio de Nagasaki comendo poeira.
Quem interpreta primeiro um acontecimento consegue emprestar-lhe o primeiro significado e obriga o adversário a jogar no seu campo. A velha guerra das versões ganhou nova dimensão: a guerra pela precedência das versões. A campanha, que havia aprendido a correr, ganhou pernas novas. O eleitor continua com as duas de sempre. E olhos também. Fotografia era documento; áudio era prova; vídeo, sentença transitada em julgado. O “eu vi” encerrava discussões.
Convém aposentar essa certeza. Em 2026, ver já não significará necessariamente saber. A I.A. não permitirá apenas que a mentira pareça verdade. Permitirá que a verdade seja acusada de mentira. Um vídeo verdadeiro poderá ser chamado de artificial; uma declaração autêntica, de montagem. A tecnologia oferece à mentira duas possibilidades igualmente preciosas: inventar o que não aconteceu e negar aquilo que aconteceu. Por isso, o eleitor terá de recuperar uma tecnologia antiga: a desconfiança.
Recebeu algo extraordinário? Procure a origem. Uma declaração escandalosa? Confira outras fontes. Uma imagem lhe provocou raiva? Espere antes de compartilhá-la. A pressa é a assessora da mentira. A raiva, sua melhor distribuidora.
Depois de mais de duas décadas trabalhando com campanhas, aprendi: comunicação pode iluminar qualidades e corrigir percepções, mas não sustenta indefinidamente um personagem que a realidade desmente.
Durante séculos, o poder pediu ao cidadão que acreditasse no que via. Agora, convém perguntar quem deseja que ele veja aquilo — e o que espera que faça depois. Na eleição da inteligência artificial, a inteligência mais necessária talvez seja justamente a mais antiga: a dúvida.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Tribuna Livre,por Leitores do Jornal A Tribuna