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OPINIÃO INTERNACIONAL

O interregnum

Coluna é publicada no jornal A Tribuna

José Vicente de Sá Pimentel | | Atualizado em
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel

Os discursos de abertura das Assembleias Gerais da ONU fornecem anualmente um retrato das relações internacionais. Na foto dos 81 anos, a imagem saiu desbotada, mais um sinal daquilo que os cientistas políticos americanos estão chamando de “interregnum” entre o velho mundo da pax americana, que está morrendo, e a nova era, que ainda não nasceu.

O catalisador por excelência da mudança é Donald Trump, que desperdiçou, segundo o New York Times, sua sexta aparição no pódio com “quase uma hora de queixas e autoelogios”. Chega a dar vergonha alheia vê-lo repetir que em sete meses resolveu sete guerras e mereceria o Nobel da Paz.

Nenhuma surpresa com Javier Milei. O argentino desdobrou-se em elogios a Trump e em ataques à ONU, chamando a Agenda 2030 de “programa supranacional, socialista”. Seu anarcocapitalismo não se coaduna mesmo com o ethos multilateral.

Coube a Emmanuel Macron, em seu discurso de despedida da ONU – deixará o Élysée em maio de 2027 – a defesa mais inflamada do multilateralismo. Alertou para “a lei da selva” e “o retorno do imperialismo”, denunciou a “falsa paz em Gaza” e defendeu o reconhecimento da Palestina. Frisou que “este aniversário da ONU não é uma celebração” e, batendo na mesa, insurgiu-se contra as violações do Direito Internacional e, em particular, das Convenções de Genebra. Sublinhou que a mudança climática, a perda de biodiversidade, a IA desregulada e as guerras comerciais são ameaças a toda a humanidade. Em suma, foi ponto por ponto o oposto de Trump.

A China lembrou que a vitória contra o fascismo possibilitou a criação da ONU, “experimento histórico para escapar da lei da selva”. Sem citar Trump, criticou o unilateralismo e a mentalidade de Guerra Fria, o festival de barreiras comerciais e rejeitou categoricamente a “superioridade civilizacional”, conceito usado para justificar o colonialismo.

O que mais chamou a atenção, no entanto, foi ter sido o discurso apresentado pelo premiê Li Qiang. O presidente Xi Jinping costuma prestigiar a ONU; esteve em Nova York nos 70 anos da ONU, antes de seguir para a visita a Barack Obama. Desta vez, voou direto para Washington. Os comentaristas multiplicam hipóteses para o forfait e para outras circunstâncias peculiares da segunda visita de Estado do presidente chinês aos EUA em 11 anos.

Em 2015, Xi se fez acompanhar de expressiva delegação empresarial, com destaque para Jack Ma, da Alibaba, e Pony Ma, da Tencent. Desta vez, nenhum empresário chinês esteve no jantar oficial na Casa Branca, enquanto do lado americano acotovelavam-se Elon Musk, Tim Cook, Jensen Huang, Sam Altman, Satya Nadella, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg. Tão seleta comitiva evidenciava no mínimo a expectativa de entendimentos, senão de negócios na área tecnológica, sobretudo em IA.

Trump cobriu o hóspede de mesuras. Aliás, toda a preparação da visita demonstrou reverência pela China, haja vista o virtual congelamento da venda de US$ 11 bilhões em armamentos a Taiwan. Lembro que na visita de Trump à China, em maio último, Xi havia alertado para o risco de uma “armadilha de Tucídides” caso negócios dessa natureza fossem concluídos. Até agora, não foram.

Xi retribuiu as gentilezas, mas na Casa Branca deixou claro que as empresas chinesas precisam ser “tratadas com justiça” nos EUA. O recado foi dado: tarifas alucinadas, filtros políticos, alegações de segurança nacional e outras restrições a investimentos estão inviabilizando o mercado americano.

Enquanto o interregnum evolui, Brasil, Canadá, Quênia e o presidente do Conselho Europeu lançaram, na véspera da AGNU, a iniciativa P4M – Partners for Multilateralism. O objetivo é criar uma moldura flexível e aberta para cooperação entre países de diferentes regiões e tradições políticas, dispostos a construir coalizões por reformas e traduzir princípios compartilhados em ação prática.

Pode parecer fantasioso. No entanto, ao reunir lideranças com tamanho prestígio, o P4M se impõe como tentativa necessária. Cooperar não é idealismo, é necessidade prática. Nenhum país, por mais poderoso, resolve sozinho os problemas do clima, das pandemias e das questões relativas ao uso da IA. Está na hora de arregaçar as mangas diplomáticas e construir uma nova era, com base em princípios e valores civilizados, e não na “lei da selva”, metáfora ouvida com crescente e lamentável frequência nas Assembleias Gerais das Nações Unidas.


          Imagem ilustrativa da imagem O interregnum
José Vicente De Sá Pimentel, nascido em Vitória, é embaixador aposentado |  Foto: Divulgação

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