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OPINIÃO INTERNACIONAL

Em quem votar?

Em conversa casual, embaixador aposentado expõe dúvidas do eleitor e propõe premissas para evitar rótulos fáceis e escolhas que possam piorar a vida

José Vicente de Sá Pimentel | 28/07/2026, 10:04 h | Atualizado em 27/07/2026, 16:35
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel

Entro no Uber e o motorista puxa papo: “E aí, doutor, gostou da Espanha?” Digo que sim, mereceu vencer. Ele concorda e introduz o assunto que realmente o aflige: “Queria que fosse tão fácil saber quem merece ser presidente. Cansei de tanta briga, quero é melhorar de vida. Quem vai me dar isso?”

Senti o drama do rapaz. Se seus problemas não foram resolvidos nos três mandatos já exercidos por Lula, poderão ser resolvidos agora? Também não quer votar no filho de um presidente que não demonstrou eficiência e nem sequer solidariedade quando a mãe morreu vitimada pela pandemia de covid.

Lembrei do professor Valladão, berrando na aula que metade da resposta está na pergunta. Negligência que mata pessoas não é coisa trivial. Mesmo assim, a escolha é complexa. No cenário frenético e conturbado da política atual, tanto interna quanto internacionalmente, escolher um lado é como entrar de bicicleta num tiroteio no Alto da Penha: vem bala de todo lado. Se quisermos tratar o assunto com objetividade, duas premissas são necessárias, para bloquear o spam político.

O PT não é formado por comunistas empenhados em estatizar os meios de produção e implantar um regime assistencialista inimigo da livre iniciativa. Nem todo conservador se atrela a um liberalismo extremado, em que um Estado indigente libera os super ricos de impostos e larga os pobres à deriva, no limbo do algoritmo.

A esquerda rotulou o governo Fernando Henrique Cardoso de “direitista”. Não era. FHC era social-democrata. Privatizou, mas criou o Bolsa Escola e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Há quem considere Lula um esquerdista radical, estatizante e assistencialista. Não é. Os recursos públicos usado pelas “campeãs nacionais” visavam fortalecer o privado estratégico. O Estado não pretendia ser dono de tudo. Uma Petrobras e uma Eletrobras fortes puxariam investimento, engenharia e emprego para o setor produtivo no Brasil.

O discurso da direita sobre o assistencialismo é um dos mais persistentes e menos justificáveis. Basta consultar os relatórios técnicos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, cruzados com o Caged do Ministério do Trabalho, auditados pelo BID e replicados pelo Ipea mostram que o Bolsa Família não cria dependência.

Em 2024, 1,3 milhão de famílias deixaram o programa por aumento de renda, 98,8% das vagas formais criadas foram ocupadas por pessoas inscritas no CadÚnico e 1,3 milhão de famílias deixaram o programa porque superaram meio salário-mínimo de renda per capita.

Mas quando se está indeciso, é natural sonhar com um salvador da pátria. Embora a experiência ateste que na maioria das vezes não dá certo, é também incontestável que o conceito de terceira via teve antecedentes notáveis. De Gaulle com o mote “ni Moscou, ni Washington”, Gandhi e a “suwaraj” divergiram das tendências dominantes e se tornaram notáveis por isso.

Um movimento ainda mais relevante para a história diplomática foi arquitetado por Raul Prebisch. No auge da Guerra Fria, os países em desenvolvimento tinham duas receitas: apelar para o FMI e o Banco Mundial em troca de abertura da economia, ou adotar o planejamento central da URSS.

Na presidência da UNCTAD, Prebisch propôs uma terceira saída: o “desenvolvimento com autonomia”. Com base na constatação estatística de que o livre comércio só funciona entre iguais, a UNCTAD se empenhou para que os países em desenvolvimento promovessem a integração regional e se beneficiassem de regras comerciais temporariamente mais vantajosas.

Hoje as propostas de Prebisch parecem páginas destacadas de um folhetim. O país líder do mundo desde 1945 não quer mais saber de livre comércio, a cooperação para o desenvolvimento é tratada como se fosse um estratagema para tirar dinheiro do Tesouro americano. A anarquia promovida por Trump nas relações internacionais dificulta ainda mais a resposta à pergunta do motorista de Uber.

Essas análises vão tão longe que decidi simplificar. Disse ao rapaz que é mais fácil dizer quem pode piorar sua vida. Nesse ponto, parto do princípio de jamais votar em quem, por interesses eleitorais, atua fora do Brasil contra os interesses do povo brasileiro. Incluo nessa lista os que vestiram bonezinho do movimento MAGA, um atestado de que ou são ignorantes, ou cúmplices de quem defende a supremacia branca, a expulsão brutal de imigrantes, a destruição do meio ambiente e a hegemonia imperial dos Estados Unidos. Nesses não dá para votar.

JOSÉ VICENTE DE SÁ PIMENTEL, nascido em Vitória, é embaixador aposentado

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