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OPINIÃO INTERNACIONAL

A primeira campanha eleitoral da pós-realidade

Eleições na Hungria expõem avanço do modelo iliberal de Viktor Orbán e o uso intensivo de IA na disputa política

José Vicente de Sá Pimentel | 06/04/2026, 13:22 h | Atualizado em 06/04/2026, 13:22
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel

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          Imagem ilustrativa da imagem A primeira campanha eleitoral da pós-realidade
José Vicente de Sá Pimentel. |  Foto: Divulgação

No próximo domingo, dia 12, as atenções do mundo estarão voltadas para as eleições parlamentares na Hungria. Os eleitos elegem, por sua vez, o Primeiro-Ministro. Embora não tenha relevância econômica, o país se tornou um símbolo do movimento global autocrático-religioso de extrema-direita, que o seu Primeiro-Ministro, Viktor Orban, prefere qualificar de iliberal.

Quando o Pacto de Varsóvia se dissolveu em 1991, havia expectativas generalizadas de que a Hungria emergiria rapidamente da pobreza a que havia sido relegada pelo regime soviético. Não foi o que aconteceu. Pelas estatísticas da UE ela é hoje um dos mais pobres países europeus. A produção industrial vem decaindo, o desemprego é galopante e a população vem diminuindo. Dois terços da população consideram o sistema educacional ruim ou péssimo, o sistema de saúde pública está decadente, muito em consequência da migração de médicos. Para piorar, nos últimos três anos a Hungria transformou-se no país mais corrupto da UE. Mesmo o “índice de liberdade econômica”, publicado pela conservadoríssima Heritage Foundation, considera a Hungria o pior país europeu no quesito integridade governamental.

A despeito disso, o prestígio de Orban junto às principais lideranças da direita mundial segue inabalável. Sua atual campanha eleitoral recebeu o endosso dos líderes da direita alemã, holandesa, polonesa, e até do insólito Javier Milei. Marco Rubio esteve em Budapeste para sublinhar o apoio de Trump, que considera Orban o seu maior aliado na Europa. Dois outros amigos importantes são Vladimir Putin, que vem recebendo a ajuda de Orban para bloquear ajuda militar da UE à Ucrânia, e Jair Bolsonaro, que declarou considerar Orban “praticamente um irmão”.

Segundo Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, “a Hungria moderna é não apenas um modelo, e sim O modelo de governança conservador”. O Projeto 2025 da Heritage inspirou-se no modelo húngaro, que privilegia técnicas de comunicação agressivas, ou guerras culturais. Orban potencializa o medo. Há anos dirige a opinião pública contra bodes expiatórios que, a rigor, não têm impacto direto no cotidiano dos cidadãos. Um desses é a imigração, transformada pela retórica oficial na grande ameaça ao bem-estar do povo, apesar de não existirem no país imigrantes em número estatisticamente considerável. O inimigo externo (é muito útil ter um…) é a Ucrânia de Zelensky. Outro alvo habitual é a ideologia de gênero. A repulsa ao movimento feminista e LGBTQ+ é trabalhada sobretudo pelo lado da religiosidade: esses movimentos seriam indignos, por contrariarem a bíblia.

Em 16 anos ininterruptos de governo, Orban desenvolveu as ferramentas para se assenhorear das instituições. Várias vezes emendou a Constituição e alterou as regras eleitorais em benefício do seu partido político, o Fidesz; interveio no serviço público, substituindo funcionários; desarticulou o Poder Judiciário, nomeando juízes alinhados com as teses ultradireitistas; aplicou pressão econômica e criou regulamentações específicas para enfraquecer a liberdade de imprensa; fez aprovarem-se leis que limitam os direitos das minorias; retirou fundos de apoio a universidades, e forçou a Universidade Centro-Europeia, fundada por George Soros, a transferir-se para Viena.

Esse é, em síntese, o modelo decantado por Kevin Roberts e seguido hoje como uma cartilha pelo Partido Republicano, nos EUA.

E eis que as pesquisas eleitorais indicam que agora o Fidesz poderá perder para o Tisza, partido liderado por Peter Magyar, que também é de direita, porém moderado, em particular no cenário europeu. Caso vença, a Europa deverá liberar-se do veto húngaro e voltar a falar com uma só voz nas questões geopolíticas.

Um aspecto da campanha eleitoral húngara que nos interessa de perto é o uso de recursos de IA na propaganda de Orban. A utilização é tão intensa que a escritora Anne Applebaum a qualificou de “primeira campanha política da pós-realidade”. A imagem de Orban quase não aparece. Cede lugar a vídeos de tik tok com versões de Zelensky ou Peter Magyar contando dinheiro, cheirando cocaína ou tripudiando de militares húngaros. O baixo nível impera.

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