Violência que vem de dentro
Psicóloga reflete sobre o impacto da autocrítica extrema e alerta para os danos emocionais causados pela violência silenciosa contra si mesmo
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Ao longo da minha trajetória como psicóloga, professora e observadora das relações humanas, aprendi que nem toda violência deixa marcas visíveis. Algumas não chegam em forma de grito, ameaça ou rejeição. Algumas chegam em silêncio. E, muitas vezes, chegam de dentro.
Tenho observado com frequência um fenômeno tão comum quanto pouco nomeado: o autoabuso psicológico. Um padrão em que a pessoa passa a se relacionar consigo mesma a partir de exigências extremas, críticas constantes e pouca ou nenhuma permissão para falhar, descansar ou simplesmente ser.
É aquela voz interna que nunca considera suficiente. Que transforma conquistas em obrigação, erros em identidade e vulnerabilidade em fraqueza. A voz que diz: “você poderia ter feito melhor”, “não foi grande coisa”, “não pode parar agora”, “não decepcione ninguém”.
Na clínica, esse fenômeno pode ser compreendido por diferentes lentes, mas encontro grande respaldo na teoria dos esquemas de Jeffrey Young, especialmente no esquema de defectividade e vergonha. Quando experiências precoces de crítica, invalidação, comparação ou afeto condicionado marcam o desenvolvimento, muitas pessoas passam a carregar uma crença profunda de inadequação, como se houvesse algo essencialmente errado com quem são.
Com o tempo, aquilo que um dia veio de fora ganha morada interna. E então a pessoa aprende a se cobrar antes que alguém cobre, a se diminuir antes que alguém critique, a desistir antes que alguém rejeite. Parece proteção. Mas, na prática, é aprisionamento.
No consultório, na universidade e nos espaços de escuta que a vida me permite ocupar, encontro pessoas extremamente competentes que se sentem fraude, pessoas admiradas que se sentem pequenas, pessoas amadas que continuam se sentindo insuficientes.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes da vida adulta seja: se a minha voz interna tivesse rosto, eu gostaria de conviver com ela?
Saúde mental também passa por isso. Pela forma como nos tratamos quando ninguém está olhando. Porque amadurecer emocionalmente não é eliminar toda autocrítica, mas compreender que crescimento não precisa caminhar ao lado da crueldade.
Talvez algumas das cicatrizes mais profundas comecem a fechar exatamente no dia em que a própria voz deixa de ser punição e passa, enfim, a ser abrigo.
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