Será que existe o “padrão”?
Reflexão sobre diversidade e “micropadrões” questiona a ideia de modelo universal e propõe olhar mais aberto às múltiplas formas de existir
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Andando pelas ruas do bairro — um dos mais vivos e populosos de Vitória — me peguei num tipo de espanto que não sei bem nomear. Talvez não seja surpresa, talvez seja presença. Uma atenção mais fina. Como se, de repente, eu tivesse realmente visto a diversidade que sempre esteve ali: estilos, ritmos, formas de existir.
Duas pessoas atravessaram a rua quase ao mesmo tempo. Não se conheciam — eu também não as conheço — mas eram, visivelmente, de mundos distintos.
A roupa, o jeito de andar, o corpo no espaço… Tudo dizia: somos diferentes. E eu nem estou falando de personalidade ou comportamento profundo — isso seria impossível de afirmar. Falo do que salta aos olhos. Do que se apresenta.
E aí me veio uma provocação antiga: por muito tempo, falamos de padrões. Padrões estéticos, sociais, culturais. “Existe um padrão”.
Mas será que existe mesmo? Ou o que chamamos de padrão é, na verdade, um conjunto de pequenos acordos invisíveis que variam conforme o espaço?
Na Praia do Canto, um tipo de estética. Num bar de rock, outra. Na igreja, outra. Num show, outra. Em cada território, um “micropadrão” que organiza quem está ali — não só na aparência, mas nos modos de pensar, de se comportar, de pertencer.
Talvez o erro esteja em imaginar que existe um padrão universal. Não existe. O que existe são múltiplas formas de vida coexistindo, às vezes se cruzando, às vezes se ignorando, às vezes se tensionando.
Essa ideia me lembrou Zygmunt Bauman, quando fala da modernidade líquida — esse tempo em que as formas são instáveis, os pertencimentos são fluidos e as identidades não se sustentam mais como algo rígido. A gente tenta nomear, organizar, enquadrar… mas a vida escapa.
E talvez ainda mais atual seja o convite de Byung-Chul Han, que critica essa obsessão por homogeneidade e desempenho, lembrando que a diferença não é um problema a ser corrigido, mas uma condição essencial do humano.
Então me pego pensando: se existem tantas formas possíveis de existir, por que a minha seria “a forma correta”? Por que a minha lente seria a mais verdadeira?
Talvez a gente precise, com mais frequência, se perder. Se perder em espaços que não são nossos. Caminhar por territórios onde não dominamos os códigos. Observar sem a pressa de entender. Sentir sem a necessidade de classificar.
Porque, quem sabe, nesse deslocamento, a gente descubra duas coisas importantes: que não somos o centro… E que também não somos tão fixos quanto imaginamos.
Talvez possamos, inclusive, misturar mundos. Criar um microespaço próprio — não puro, não padronizado, mas atravessado por encontros.
E se for isso… Talvez essa “viagem” não seja um desvio. Talvez seja exatamente o caminho.
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